LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de março de 2008
Diogo Cavazotti<br>Equipe da FOLHA 
Há poucos dias um amigo recebeu um telefonema em uma nublada tarde de sábado. Ele estava sozinho em casa, assistindo televisão, quando o aparelho tocou. Pensou em não atender, já que o programa estava bastante interessante. Mas entre uma escolha e outra resolveu se levantar e ir até o aparelho. Quando encostou o telefone no ouvido, não conseguiu reconhecer quem estava do outro lado da linha. Aos poucos ela se identificou: era uma senhora que ligava para um número qualquer apenas para conversar. Ela havia tomado duas dúzias de remédio, com o intuito de se matar. Porém, até os medicamentos atuarem em seu organismo, queria conversar com alguém. E o premiado foi o meu amigo, que se arrependeu de imediato ter atendido a ligação.
No início, tentou fazer com que ela mudasse de opinião. Ofereceu ajuda, disse que poderia ir até sua casa, chamar uma ambulância ou avisar a família. A senhora, certa de seu futuro, agradeceu as tentativas de salvá-la, mas não aceitou nenhuma delas.
Aos poucos a conversa fluiu. Ela contou sobre sua família, sua carreira, os amores do passado e a tristeza em relação ao futuro. Certa de que não havia motivo para continuar com o sofrimento, o suicídio era a saída ideal.
O novo amigo da senhora interagiu na conversa e em muitos momentos chegou a não acreditar que ela havia ingerido quantidade suficiente para se matar. Porém, após um tempo, a voz da senhora começou a ficar mais fraca, demorando mais tempo para dar as respostas. Às vezes ficava muda por alguns segundos, voltando a falar com menos força. Até que chegou o momento em que ele falou sozinho, contou sobre sua vida, seus amores e sua confiança com relação ao futuro, enquanto ouvia a respiração fraca e forçada do outro lado da linha.
Quando fez mais perguntas para a senhora, não obteve resposta. Voltou a perguntar e não ouviu sua voz. Por quinze minutos ele tentou ouvir algum barulho, uma respiração ou algo parecido do outro lado da linha, chamando constantemente a senhora pelo nome. Sem obter sucesso, esperou mais um tempo e quando teve certeza que mais nenhuma conversa seria travada, desligou o telefone.


