A modernidade tem seu preço. E é bem salgado. Quando eu era criança, minha mãe não precisava fazer feira para abastecer a fruteira da cozinha. Em casa tínhamos um quintal enorme, com pelo menos uns dez tipos de árvores frutíferas. Araçá, araticum, juá, goiaba, manga, laranja, limão, pêssego, abacate...
Comer fruta não custava nada - ou quase nada. E eram orgânicas, sem nenhum veneno artificial. O único preço que pagávamos por isso era engolir uns 'bichinhos' indesejáveis junto com as frutas. Mas, como dizia minha prima, ''eles estão cheios de fruta por dentro, não tem problema''. Ou levar alguns tombos cinematográficos que custavam uma belíssima bronca, acompanhada de uma corrida básica ao hospital.
Hoje, meu hábito de comer frutas custa caro. Por exemplo, o tal araticum. Nunca achei com esse nome em feira. Tem uma fruta parecida, a atemóia, que custa três reais a unidade. O juá virou physalis (com ph, pode um negócio desses?), e a cestinha com cem gramas custa sete reais. E aposto que estão cheias de agrotóxicos. As ameixas, que caíam no gramado da minha antiga casa, por aqui são difíceis de achar. Framboesas pretas, pior ainda.
Quando não é época da fruta, então, o remédio é passar vontade. Além disso, as feiras ficam em ruas movimentadas, onde não tem como escapar daquele cheiro de escapamento de carro.
Nunca senti cheiro de manga ou de laranja numa banca de frutas. Pelo menos não como aquele perfume no jardim, que dava para sentir da janela.
É, é saudosismo. Mas não vou deixar de ver o lado bom: nunca quebrei um braço caindo de uma banca de frutas para pegar um abacate ou comi uma lagartinha 'embutida' num pêssego. A modernidade pode ter seu preço, mas o sistema de saúde é bem mais caro...

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