Minha filha inventou um mundo onde tudo é possível. Por alguma convenção que só ela deve saber explicar, chama o espaço de ''minha Disney''. Não. Ela nunca foi a Disney -a verdadeira- e também nunca mencionamos o parque americano em casa. Não tem nenhum amiguinho que já foi e tampouco seu limitado universo televisivo pode ter remetido às características reais do mais famoso parque de diversões. Mas voltamos à imaginação da menina. Na Disney dela, tudo pode e a pequenina recorre ao espaço sempre que está em alguma situação limite.
Na hora do jantar, é preciso comer verduras, mas na Disney dela, nenhuma verdura pode ser devorada. Na hora de sentar no carro, é necessário colocar cinto, mas na Disney dela, ela é grande suficiente para dirigir o carro sozinha. A obsessão por esse mundo particular anda tão grande (e abusiva) que eu confesso que já estou perdendo a paciência e querendo dizer coisas que qualquer estudante de psicologia iria, certamente, reprovar.
Então comecei a inventar recursos mentais para aumentar o meu grau de paciência quanto às desculpas que a menina utiliza e o recurso constante ao mundo dela quando ''o bicho está pegando''. Pensando bem, ela não é única a inventar um universo muito particular. O nosso Presidente da República, por exemplo, criou um mundo em que ele nada vê e nada sabe. É o chefe da nação e na ''Disney dele'' (ou sabe-se lá como ele chama) é sempre o último a saber.
Um certo governador americano, que no mundo real discursava contra a prostituição, lançou mão de uma cafetina quando pensava estar sozinho ''na Disney dele''. Outro governador bem brasileiro também não acredita que exista violência ''no Estado dele''. A culpa é da imprensa, que divulga números, ou de quem abre as portas da cadeia para que os ladrões saiam. Pensando bem, na ''minha Disney'' não existe nem governador, nem violência. E acho que não preciso comer verduras hoje. Porque ''na minha Disney'' somos sempre saudáveis. De mente e de corpo.

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