Tomo emprestado o título de uma das mais belas canções da MPB, interpretada magistralmente (admito, há muito tempo queria usar essa palavra) para falar sobre uma situação onde a música também foi determinante. Sábado à noite, temperatura agradável, resgato do guarda-roupa meu ''modelito'' de fim de semana - jeans, camiseta preta básica e tênis - para ir assistir à única apresentação na cidade de uma das bandas de pop rock (será?) mais badaladas na cena nacional dos anos 80.
Se fosse hoje, talvez eles recebessem adjetivos como ''hypeados'' ou ''incensados'', termos que eu nunca compreendi bem, mas que os colegas dos cadernos de cultura e entretenimento distribuem à vontade nos textos. Enfim, como tenho mais de 35, digo apenas que eles eram ''famosos'' e pronto. Acho que a maioria entende o que isso significa.
Para completar o visual despojado, puxei do fundo do armário uma daquelas bolsas de pano, que a gente coloca a tiracolo na transversal. Queria as mãos completamente livres para me movimentar bastante. E não deu outra: depois de encontrar os amigos, entro na tal casa de shows e a mágica acontece. Eu, que não sou muito de baladas, comecei a me divertir só de olhar para o pessoal.
Nada de adolescentes com tops mínimos e piercings no umbigo, ou rapazes com aquelas bermudas imensas e bonés. O público, na maioria, era formado por jovens senhores e senhoras - como eu! - alguns ostentando orgulhosos a companhia dos filhos. Mulheres com essas maravilhosas batas de algodão que escondem a barriguinha, rapazes, ou melhor, homens, com camisetas estampadas com a imagem de ídolos da juventude. E até alguns com aquelas camisas xadrez de gosto duvidoso.
O grupo entra no palco, o som deixa muito a desejar, mas a animação é geral. Apenas para me permitir o uso de um clichê. O pessoal que me acompanhava também estava muito animado. Dançamos sem parar e cantamos aquelas músicas que, há 25 anos, eu julgava ''comerciais'' e cafonas demais. Aliás, cafona é a palavra mais cafona que eu conheço. Mas, o brega veio depois disso.
Quase duas horas de show depois, estávamos suados, envolvidos naquela atmosfera ''nostálgica''. Era um tal de ''Puxa, lembra dessa música?'' e ''Nossa, eu dancei isso com meu primeiro namorado aos 14 anos!''. Foi simplesmente muito bom. E, ao invés de lamentar o tempo passado, lembrei que, agora, eu mesma pude pagar meu ingresso, comprar o que bem quis e esticar a noite sem ter de dar satisfação a ninguém.
Outra conclusão importante: depois dessa experiência passei a compreender completamente o desejo da minha mãe de ir novamente a um show do Roberto Carlos e a quase euforia do meu pai ao me ligar dizendo que havia conseguido num sebo carioca um antigo ''disco'' do Benito de Paula.

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