LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de março de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
As pelejas que travamos diariamente para nos fazer entender pelos nossos semelhantes me remetem a uma história pitoresca, ocorrida anos atrás num lugar bucólico e mágico chamado Ilha do Mel, no litoral paranaense.
Nessa ilha existem diversos campings, onde os menos afortunados encontram uma oportunidade de passar o veraneio. A história que vou contar passou-se no camping do Serginho, conhecido pela maioria dos moradores locais por sua alma generosa, sua presença divertida e sua voz completamente fanha.
Eis que o camping do nosso amigo era um dos piores da região, vizinho a um depósito de lixo, que atraía moscas, ratos e outros animais indesejáveis, sem falar no cheiro que era trazido pelo vento. Por conta disso, Serginho tentava compensar essas desvantagens com um atendimento personalizado, cheio de simpatia e calor humano. Se assim era conosco, reles brasileiros, imaginem quando apareciam por lá clientes estrangeiros, cheios de dólares, euros e outras moedas que faziam brilhar os olhos vesgos do Serginho.
Em uma dessas raras ocasiões, nosso herói decidiu empenhar-se para segurar os fregueses gringos. Mesmo sem falar uma palavra em inglês, Serginho não se intimidou em encarar a situação e foi explicar ao casal que chegava como funcionavam as coisas por ali. ''Agui, bagaqua'', apontava ele para o local onde são montadas as barracas. ''Aí, gogão, gumida'', dizia fazendo gestos de que comia alguma coisa referindo-se à cozinha coletiva do estabelecimento.
Eu acompanhava de longe as tentativas do incansável Serginho de explicar, no seu fanhoso inglês, o funcionamento do local aos estrangeiros, que o olhavam com cara de espanto, sem pronunciar uma sílaba.
Somente depois que eles foram embora, um gabola da região foi explicar ao inconsolável Serginho que não adiantavam nada seus esforços para se fazer entender em língua estrangeira. Afinal, não se tratava de um casal de gringos, e sim de surdos-mudos.


