Se tem uma coisa que é digna de respeito é a palavra escrita. Muito já se confiou na palavra empenhada mas em tempos de desconfiança nada vale mais que a tinta sobre o papel, devidamente reconhecida por assinaturas e outros registros igualmente impressos. Nada me intriga mais e nenhuma obra do engenho humano é para mim maior que a possibilidade do registro de idéias em um meio físico, desde as primeiras inscrições rupestres, passando pelas tábuas de argila ou madeira, pelos pergaminhos e papiros, pelo papel, até os mais recentes arquivos eletrônicos.
Poder investigar o que passou pela cabeça de alguém do outro lado do mundo e distante de mim vários anos, séculos e até um milênio inteiro, mediante um simples virar de página é para mim algo verdadeiramente mágico. Iniciar a leitura de um texto é antes de tudo transportar-se através do tempo. É o que você leitor está fazendo no presente momento enquanto se encaminha para o fim desta crônica finalizada já no dia anterior. O texto é como uma ponte estendida entre a mente daquele que o lê e a daquele que o produziu. No caso dessa crônica, entre a minha e a sua. Sem que nós dois nunca tenhamos que nos conhecer.
Nem mesmo a velocidade com que se transportam mensagens, textos e, em breve, documentos através dos meios eletrônicos serão capazes de estragar essa magia. O suporte é o que menos importa. O registro da idéia e a possibilidade de compartilha-la nunca deixarão de ter o seu próprio mecanismo misterioso de conservar e transportar através do tempo os lampejos de alguém, durante um momento qualquer. Pense em quantas dessas pontes você pode construir, quando quiser e com quem bem entender. Depois é só fechar o livro e pronto, você já está volta.

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