Lá estava eu na platéia do meu teatro ambulante de todo dia: o ônibus biarticulado Rui Barbosa-Pinheirinho. Quando estou de bom humor (isso não é assim tão raro, gente!) é desse modo que me sinto, uma espectadora privilegiada das mais diversas peças, que vão do drama à comédia.
Naquela segunda-feira, em um banco em frente ao meu, um homem já na casa dos 70, ao menos aparentava isso, começou a brincar e puxar assunto com um menino de seus seis ou oito anos que estava em pé, ao lado. Junto da criança, uma mulher, com cerca de 30, cuja fisionomia não deixava dúvidas de que era mãe do garoto. Muito parecidos mesmo.
O tal homem, que ora parecia estar bêbado, ora meio maluco, disparou a falar alto. ''Esse aqui, minha gente, vai ser um gênio da informática, olhem o jeito dele''. O menino, claro, que não estava entendendo nada, continuava a comer os biscoitos que tirava de um saco. A mãe, sem ter como sair dali, fingia certa compaixão pela ''figura''.
Um comentário aqui, outro ali, ele pergunta o nome da criança. Depois, a idade. A mulher, responde pacientemente. O garoto seguia se esquivando daquela mão estranha que tentava afagar os cabelos dele. E o idoso, dirigindo-se mais uma vez à mulher, solta a seguinte ''pérola'': ''a senhora é avó desse menino?''
Silêncio. Os passageiros se entreolham. ''Ih, é agora que essa criatura vai apanhar'', pensei. Entretanto, a mulher, sabe-se lá a razão, começou a ''entrar no jogo'' do estranho indivíduo. E ouvi um diálogo mais surreal da minha vida.
''Sou a mãe dele, mas tenho 70 anos. Sou um caso único na medicina mundial'', disse ela, com a maior calma. Ele não hesitou: ''Nossa, nunca poderia imaginar'', respondeu ele, com voz enrolada. ''Pois é, eu sou uma raridade. Até a Veja fez matéria de capa com a minha história. Você não leu?''. A essa altura, uns já davam risinhos, outros viravam o rosto. Eu agucei os ouvidos.
''Não tenho lido muito ultimamente'', continuou o homem. ''Com a energia que eu tenho acho que viverei para sempre'', emendou a mãe. ''Ah, não. Isso é impossível. Mas que Deus lhe dê pelo menos mais uns 20 anos para criar esse guri'', insistiu ele. ''Bom, se não for para sempre, que seja pelo menos uns 10 mil anos. Foi para você que o Raul Seixas fez aquela música, né?!'', retrucou ela. Será que a briga iria começar?
Que nada. Ele saiu-se muito bem: ''Puxa, como você soube? Eu fui guitarrista dele!''. Já era impossível conter a gargalhada coletiva. Eu desci no tubo seguinte pensando que talvez eu seja normal demais.

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