LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Sei que parece bobagem, mentira, ou algum tipo de transtorno mental, mas a luta dos desmotorizados contra os motores me enche o coração. Entusiasmo, é ter um Deus (téos) dentro de nós. É assim que eu fico quando vejo um automóvel sendo forçado a parar pela simples presença de um corpo humano em seu caminho. É como se me vingasse de todas as ingerências, impropérios e canalhices que os motoristas já me inflingiram, com suas buzinas inesperadas, sua aceleração intimidante e seu sentimento de invulnerabilidade.
Quando a multidão do calçadão da Rua XV (no coração central de Curitiba) veta o trânsito de veículos ao decidir - todos ao mesmo tempo! - ignorar o sinal vermelho e atravessar a rua, eu vou ao delírio. Dá vontade de tirar uma foto, abraçar um transeunte desconhecido, ou apenas pular e dar um soco no ar, como Pelé fazia ao comemorar um gol. Nesses momentos fico com os olhos rasos d'água, pois entendo que operou-se ali uma pequena vitória do homem contra a máquina.
Sei que não é correto furar o sinal, muito menos atrapalhar o trânsito. Não se trata de nenhum sentimento subversivo, apenas de autoproteção. Quantas vezes somos surpreendidos por um veículo saindo de alguma garagem em alta velocidade? Respeito as regras, sou um pedestre obediente (apesar dos meus sentimentos secretos), mas a calçada é o meu território, não abro mão dela.
Infelizmente, não raro encontro motociclistas desbravando atalhos por entre os pedestres incautos, automóveis que avançam enquanto a turma ainda está terminando de atravessar uma rua e outros tantos que não estão nem aí para os corpos desmotorizados pela rua. Assim como as avenidas por onde passam com suas máquinas, o respeito também deve ser uma via de duas mãos.


