LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Para evitar chegar atrasada à clínica onde seria submetida a um desagradável exame oftalmológico, recorri à central de táxi. Quando é inevitável fazer algo que me incomoda, prefiro que seja o mais rápido possível. Isso explica minha pressa naquele dia. Enquanto falava ao telefone com a atendente, remexia na bolsa. Não havia dinheiro suficiente para pagar a corrida. Então, acrescentei: ''Preciso de um carro que tenha máquina de cartão de crédito''.
Passaram-se dez, 15, 20 minutos. Ligo para a central de novo. Uns cinco minutos depois da reclamação, lá está o carro estacionando em frente ao edifício onde moro. Compacto, modelo novo - não saberia mencionar qual - o veículo tinha como motorista um cidadão na casa dos 50 anos, que foi logo se explicando: ''Demoraram para localizar um táxi que aceitasse cartão''.
Desculpas aceitas, seguimos pela Getúlio Vargas. Antes, porém, observei um detalhe curioso: nas janelas laterais havia dois pequenos adesivos estampando o rosto de Che Guevara, reprodução da famosa foto em que o guerrilheiro, usando boina, olha para cima, com cara de mártir.
Mesmo sem muita disposição para conversar naquele momento, fui ouvindo o homem discorrer sobre as vantagens e facilidades proporcionadas pelo novo meio de pagamento nos táxis, o cartão de crédito, Que também pode ser usado para debitar o valor imediatamente, como sabemos. ''É muito melhor, mais rápido e seguro. Não precisamos ficar andando com dinheiro'', justificou. Foi impossível não observar a aparente contradição. Aquele trabalhador levava o comunista ''Che'' pra cima e pra baixo e defendia uma das mais eficientes ''ferramentas'' do capitalismo? Que coisa.
Ao sair do carro, porém, olhei mais uma vez para a estampa do ''camarada'' e percebi que ela era estilizada. Da imagem original guardava apenas a ''mensagem'' que surge em nossa mente quando a fitamos: liberdade, justiça, paz, direitos e deveres para todos. E fiquei aliviada por aquele homem poder expressar suas idéias da forma que acha melhor. Quem sabe, um dia, o agora aposentado Fidel também não chame um táxi?


