LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
É incrível como pequenas coisas podem parecer tão prazeirosas quando estamos afastados delas, ou como alguns problemas perdem a importância frente a dificuldades maiores. É como a história do bode na sala: a mulher implicava constantemente com a bagunça do marido, até que ele teve a idéia de colocar um bode na sala. Perto disso, todas as outras coisas que ele aprontava pareciam insignificantes aos olhos dela.
Comigo aconteceu algo parecido. Após fraturar a mão direita e ficar afastado de minhas funções normais por 15 dias, as pequenas coisas do meu cotidiano, que eu desempanhava com a maior naturalidade, ganharam outra dimensão. Pegar uma chave no bolso direito, por exemplo, convertia-se em uma tarefa árdua e dolorida, bem como abrir uma lata de refrigerante, cortar um bife, anotar um recado ou escovar os dentes. Coisas simples, mas que sem a mão direita pareciam incrivelmente complicadas.
A dificuldade que essas tarefas apresentavam, me faziam esquecer de outros problemas. Afinal, que importa chegar atrasado na aula do curso de especialização quando não consigo nem segurar a caneta? Ou então, qual a relevância de andar com o cabelo despenteado quando não é possível nem tomar um banho sozinho? Tudo isso parecia desimportante e supérfulo frente às grandes questões da sobrevivência diária.
Quando tirei o gesso e recuperei a liberdade dos movimentos - ainda limitados, é verdade - fui inundado por uma onda de alegria tola. Converteram-se em um grande prazer tarefas como digitar, lavar o rosto e cortar as unhas. Me surpreendi com um sorriso interno depois de cumprimentar com um sinal de positivo, com o dedo polegar, o porteiro do meu prédio. Coisas insignificantes, que normalmente não damos importância, mas que nos fazem muita falta quando ficamos privados delas.


