Houve um tempo em que analistas econômicos, principalmente os ''de esquerda'' - quando isso também ainda existia - costumavam usar um termo bastante peculiar para definir a situação do desenvolvimento brasileiro. Diziam que aqui era a ''Belíndia'', a associação perfeita da pequena e rica Bélgica com a enorme e subdesenvolvida Índia.
O termo foi inventado, no início dos anos 70, pelo economista Edmar Bacha para referir-se à distribuição de renda no Brasil. Uma pequena, para não dizer ínfima, parcela da população detinha a maior parte das riquezas do país. Enquanto a maioria... bem, a maioria tinha a casa própria como sonho distante, se endividava para adquirir os bens básicos, mas seguia mantendo a fé em Deus e se ''divertindo'' nas noites de domingo diante da tevê, porque ninguém é de ferro. Não é mesmo?
Mas, felizmente três décadas se passaram desde então. Agora, o desenvolvimento está aí, ó, bem na nossa frente. Alta tecnologia na indústria, bancos obtendo o maior lucro da história, grandes perspectivas com o biodiesel e auto-suficiência na produção de petróleo. Aliás, quem diria que a ''nossa'' Petrobras seria alvo de espionagem industrial, em uma ação tão ''cinematográfica''.
Ainda assim, ando pelas ruas e me sinto deslocada. A imagem da ''imaginária'' Belíndia me persegue. Ainda ontem me deparei com uma cena digna dos velhos tempos: um menino de uns 8 anos, camiseta e bermuda surradas, pés descalços, olhava maravilhado através de uma vitrine enquanto o pai, catador de papel, arrastava lentamente o carrinho pela calçada.
O objeto que tanto encantou o garoto não era um brinquedo, tampouco um par de tênis da moda. Era uma simples caixa de lápis de cor que custava R$ 19,90, conforme a vendedora informou ao pequeno brasileiro que, desapontado, saiu murmurando: ''É muito caro, moça''.

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