LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Os manuais de auto-ajuda para vendedores, aqueles que ensinam técnicas quase infalíveis de marketing, capazes de vender um barco para um cliente que entrou apenas para perguntar qual a rua da peixaria, não chegaram até a Bahia. Calma, não é preconceito, eu explico. Tenho uma irmã que mora lá há mais de uma década, período em que eu já fui visitá-la uma meia dúzia de vezes. A cada nova visita volto com a mala recheadas de boas (dependendo do ponto de vista, claro) histórias sobre os comerciantes baianos.
Muito bem adaptada ao estilo curitibano de atendimento, com uma certa cerimônia, mas quase sempre com uma honesta precisão, chego a me assustar com algumas tiradas ouvidas na Bahia. Como no dia em que sentei para tomar uma refrescante bebida feita de cevada maltada numa das inúmeras barracas de praia. Pedi para o moço, que não mostrou nenhum interesse em levantar da cadeira - e da sombra - para me atender e que, com languidez característica, respondeu: ''Cerveja tem, mas não tem banheiro''.
Vejamos pelo lado positivo. Ele estava antecipando a minha necessidade e quis evitar um incômodo posterior. Encontrar explicações plausíveis para um outro episódio, porém, fica mais complicado. Estávamos, eu e minha irmã, passeando pelas lojas à procura de um óculos de sol que aplacasse a claridade encantadora de Salvador. ''Moço, posso ver esse óculos aqui'', cantei, simpática, apontando o objeto na vitrine. ''Esse aqui? Pra você? Bem, tem gosto pra tudo, né?''. Disse o rapaz, muito contrariado com a minha escolha, mesmo que isso pudesse, de longe apenas, concretizar uma venda. Não costumo ser facilmente influenciada, mas desisti da compra.
Isso não me faz desgostar daquele paraíso e nem de longe é motivo para evitar minhas visitas. Mas de vez em quando, olhando aquele mar de um verde impressionante e debaixo do sol que aparece com uma constância de assustar paranaenses, chego até a sentir saudades do monocórdio ''posso ajudar'' tão comum nas lojas curitibanas. Mas a saudade passa logo.


