LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Alguma coisa errada está acontecendo, mas ninguém conseguiu ainda me explicar o que é. Sou de uma geração cujos pais começaram a trabalhar ainda crianças ou adolescentes, que tinham que dividir seus poucos brinquedos e guloseimas com vários irmãos e irmãs, que precisaram sacrificar-se para fazer um curso superior e aos 30 anos já estavam casados, muitas vezes com filhos.
Meus amigos, que nos próximos dois ou três anos estarão se despedindo da tão frutífera casa dos 20, não tiveram que trabalhar pelo menos até a conclusão do ensino médio, não tiveram grandes dificuldades de ordem financeira ou logística para concluir o curso superior, tiveram mais brinquedos e comeram mais doces que todos os irmãos de seus pais juntos durante a infância deles, a esmagadora maioria continua solteira, sem filhos, e temos apenas um bebê a caminho entre nós.
Olhando assim comparativamente, nossos pais conseguiram oferecer a nós uma vida muito mais confortável e programada que a deles na nossa idade. Imagino que assim, naturalmente, esperavam ter filhos muito felizes e satisfeitos hoje. No entanto, o que mais se ouve nas conversas de minha geração, embora todos continuem tendo uma vida muito confortável, são queixas.
O trabalho não vai bem, a escolha profissional não correspondeu às espectativas, o salário é desanimador, as relações amorosas são por demais instáveis e desgastantes, a convivência familiar é conflituosa. Mais de uma vez ouvi de amigos de turmas diferentes que eu sou a pessoa mais satisfeita com a profissão que eles conhecem. E a cada vez, eu fico com a aquela cara de ponto de interrogação. Trabalho nenhum é só alegria, nem profissão nenhuma se abraça sem o mínimo de sacrifício, imagino eu. Mas quem precisa de sacrifício não é mesmo?


