LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de fevereiro de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Acho a colocação mais que correta. Prova disso é que sempre fui bom fisionomista, mas péssimo em guardar nomes. Matéria volátil, a palavra perde-se com facilidade nas operações da memória quando não estamos atentos, diferente da imagem, que é acessada facilmente, mesmo quando não precisamos dela.
Dentre as imagens, ocorre outra seleção. Enquanto umas vão desbotando e perdendo as linhas, outras sobrevivem ao tempo como se tivessem vida própria. Teço essa reflexão na tentativa de resgatar uma lembrança que me foi subtraída, ou melhor, perdeu-se frente a outras imagens que imprimiram mais fortemente seus contornos no tecido da memória. O fato em questão foi minha primeira visita ao circo, quando tinha uns 4 ou 5 anos.
Não tenho nenhuma recordação do espetáculo, dos leões, dos malabaristas ou do globo da morte. Nem mesmo o cheiro da serragem permaneceu. Forçando os arquivos enferrujados do tempo, consigo lembrar que brincava com um pedaço de gelo enquanto minha mãe tentava me convencer a ir ver os elefantes, coisas muito mais interessantes aos olhos de um adulto. Enquanto contornávamos a tenda deparei-me com essa cena, que ficou guardada com uma nitidez impressionante. Eram dois palhaços que conversavam nos bastidores do circo, provavelmente enquanto aguardavam seu número, fumando cigarros.
Sem nenhuma cerimônia, nenhuma mágica, nenhuma transcendência, descobri que aqueles dois seres eram homens comuns, com o rosto pintado e suas roupas de trabalho. Não contavam piadas, não sorriam, nem faziam palhaçadas, apenas expeliam a fumaça cinza e conversavam, como pessoas normais e tristes.
Não acredito que essa passagem tenha mais importância do que muitas outras que se seguiram e acabaram se perdendo na fina teia da lembrança. Mas alguma coisa nele manteve viva a cena, talvez por algum motivo que nem eu mesmo sei, como se tivesse se operado ali uma pequena revolução silenciosa na minha infância.


