Na semana que passou, fui vitimado pelo mosquito da febre amarela. Calma, não precisam chamar o controle de endemias, nem me enjaular junto com os macacos infectados de Ponta Grossa. A verdadeira epidemia, que me deixou amarelo de raiva, não teve como vetor de transmissão o aedes aegypti, e sim a televisão, os jornais e a internet.
Explico. Na segunda-feira, após um domingo gelado e macambúzio, amanheci com alguns sintomas de gripe. Na hora do almoço era só o nariz que pingava, na janta, meu corpo inteiro gotejava de suor, com uma febre registrada de 39 graus.
Apesar do perrêngue, eis que na terça-feira amanheço curado, sem nenhum sinal do mal-estar que me acometeu. Feliz da vida, comuniquei a melhora à minha senhora, que arregalou os olhos, como se estivesse diante de um comunicado fúnebre. Disse-me ela - que andava bem informada sobre a doença através dos jornais e da internet - que um dos grandes problemas da febre amarela é que seus sintomas são idênticos aos de uma gripe comum, com uma diferença.
Após um primeiro ataque, a vítima passa 48 horas bem, até que vem um segundo, muitas vezes fatal. Tentei tranquilizá-la, afirmando que meu sistema imunológico é que estava bem, e que não havia tido contato com nenhum mosquito, mas não adiantou. Só consegui dissuadi-la de me levar ao pronto-socorro naquele exato momento com a promessa de que no dia seguinte iria ao hospital para tirar a dúvida, o que acabei fazendo.
Meu desconforto começou já na sala de espera. Ao lado de uma legião de moribundos, que realmente precisavam de uma consulta médica, me senti mal por estar tão bem. Arrisquei umas tossidas para me enturmar, mas não deu muito certo. Diante do médico, a confusão piorou: ''O que o senhor tem?''. ''Eu, nada'', respondi. ''Como assim?'', indagou detrás dos óculos. ''É justamente esse o problema doutor, se estivesse com gripe estaria em casa, como não é o caso, estou aqui''. Sem entender direito, se era um caso de infectologia ou psiquiatria, me deu uma examinada geral e me mandou embora. Saí de fininho, amarelo de vergonha.

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