Em um desses momentos orquestrados pelo acaso, reencontro, quase dez anos depois, uma amiga carioca. Ela não sabia que eu havia mudado para cá e eu acreditava que ela já havia retornado ao Rio de Janeiro. O fato é que desde 2004 moramos na mesma Curitiba e nunca tínhamos nos encontrado.
Em certo momento da longa conversa - imagine duas amigas que tentam colocar em dia os acontecimentos de quase uma década - ela saiu-se com esta: ''Puxa, nesse tempo você casou, teve filho, descasou, mudou de cidade e emprego, fez novos amigos. Eu não fiz nada. Só terminei a faculdade, fiz uma pós-graduação e estou começando o mestrado...'', comentou, em tom de reclamação.
Como, na maioria das vezes, prefiro ouvir a falar, deixei que ela continuasse a relatar suas desventuras: namoros fracassados, amigos traidores, emprego nada satisfatório, a solidão que a rondava dia-a-dia. As situações positivas - ela está bem de saúde, não depende financeiramente de ninguém, está se dedicando a trabalhos voluntários - pareciam não ser suficientes. Enquanto ela desabafava, eu refletia.
Se, por um lado, ela achava que eu estava em situação mais confortável por ter menos idade e já ter formado uma família, eu ainda quero continuar estudando, mas não tenho perspectiva de iniciar uma pós-graduação. Se ela indicava que meu cotidiano era menos monótono por eu exercer a profissão que escolhi, eu pensava que, diferente dela, ainda não comprei o apartamento dos sonhos.
A amiga foi embora mais aliviada, segundo disse. Talvez eu seja mesmo uma boa ouvinte. Para mim, a ''lição'' que ficou desse reencontro um tanto insólito foi a seguinte: vidas são incomparáveis. E, tantas vezes, sofremos sem razão ao supor que o colega que trabalha na mesa ao lado, o vizinho de porta, a socialite da coluna social têm algo que nós jamais conseguiremos alcançar.
Depois da tal conversa, meu maior desejo para 2008 é ter a capacidade de vivenciar da melhor forma possível as escolhas que fiz e que faço a cada dia. E a dica para quem ainda acredita nisso é, simplesmente, ''viva e deixe viver''. Sem comparações.

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