Subindo a serra em direção à cidade, reflito se a praia não é um dos últimos redutos da democracia. Ao nível do mar, parece que ficamos todos um pouco mais iguais. Se durante o resto do ano existem distinções sociais claras no que tange a oferta de serviços, qualidade de vida e oportunidades, na temporada, ricos e pobres, brancos, negros, judeus, crentes, homo e héteros caem todos no mesmo balaio.
Quando falta água, falta para todos. Quando chove e as ruas ficam alagadas, também. A pobretada se enfia no carteado, os granfinos no notebook, mas o fato é que o programa de praia foi por água abaixo. Ambos vão pular de alegria quando o sol voltar a aparecer.
Outro exemplo democrático são as filas. Não interessa se você vai comprar presunto de parma ou mortadela. Quem chega antes é atendido primeiro, independente do pedido. Quando o mar está poluído também. A micose, o bicho geográfico e a insolação não fazem distinção de posição social, pegam todos da mesma maneira.
Se uns vão comprar pomada, outros vão matar o bicho na unha, essas são questões secundárias. O mar que banha e o sol que envolve são os mesmos para gregos e troianos. A cerveja escaldante, o preço abusivo da água de coco, o ensurdecedor foguetório e o volume irritante do som do carro de alguns veranistas também. Somos todos a mesma massa explorada, irritada e risonha se esponjando na areia. O sofrimento e o êxtase do litoral nos aproximam.
Creio que o fato da faixa litorânea do Paraná ser pequena também ajuda nesse processo. Acabamos caindo todos nas mesmas praias. O camarão de alguns é mais graúdo, de outros mais miúdo, tem aqueles que só podem comer manjubinhas, mas todo mundo se entrega ao cardápio marinho, à caipirinha (de vodca russa ou de cachaça nacional) e às havaianas. Praia é lugar de esquecer das diferenças e se deixar levar pelas semelhanças. De roupa de banho fica difícil adivinhar a posição social de alguém, né não?

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