Janeiro mal começou e dei início à contagem regressiva para o próximo Ano-Novo. No momento em que escrevo esta crônica observo que faltam 364 dias para o fim de 2008, ano bissexto. Há tanto o que fazer. Ainda quero aprender a nadar, a cozinhar, a falar espanhol, voltar a andar de bicicleta, fazer (até o fim) um curso de fotografia. E parece não haver tempo nem para a realização das tarefas básicas.
Dois dias se passaram e o que fiz de interessante? Sinto a preocupação se aproximar. Bem, comecei a ler um livro-reportagem sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, fato que completará 200 anos em novembro próximo. Além disso, tomei coragem e chamei os vizinhos para brindar ''a virada do calendário'' e até me permiti dar umas boas gargalhadas ouvindo as bobagens tão comuns a essas situações.
Esse tipo de ''comemoração'' já me irritou bastante. Não tenho atração por tumulto, barulho, gritaria e piadas absolutamente sem graça contadas por pessoas que ingeriram bebida alcoólica em excesso. Minha identidade carioca está mais para a Floresta da Tijuca do que para a Praia de Copacabana e seus dois milhões de pessoas (credo!) na areia assistindo à queima de fogos. Se é que você me entende.
Voltando ao primeiro balanço do ano: as contas estão em dia, ainda não perdi a paciência com a minha irmã, que está de férias por aqui, não discuti com o ex-marido nem reclamei da bagunça que os amigos do filho estão fazendo na sala. Acho que, por enquanto, estou ''zen''.
Entretanto, o que eu queria mesmo era abolir o calendário. Admito que ele me escraviza. A gente deveria simplesmente acordar e decidir o que fazer. ''Hoje estou com vontade de trabalhar'', ''Hum, esta quarta-feira está me convidando a caminhar no parque'' ou ainda ''Oba, sexta-feira! Vou dormir a tarde inteira''. Rasgar o calendário e vivenciar o nosso tempo interior. Já imaginou? Claro, a sociedade entraria em colapso com tamanha revolução. Mas seria por uma boa causa.

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