LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de janeiro de 2008
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Não havia sentido. A menina não falava ''sim''. Nem adiantava pedir, implorar, soluçar, chorar, esbravejar, ameaçar. Qualquer que fosse o tom, tudo o que a menina balbuciava era uma negativa.
''Mamãe, me dá o copo?''. Eu dizia: ''Só se você disser sim''. Ela respondia: ''Não''. E as tentativas foram aumentando. Se ela pedia chocolate, respondia que daria, claro. Mas ela deveria me dizer sim. Se ela queria tomar banho, eu prepararia uma água bem quentinha na banheira, em troca de um sim...
... e quanto mais eu tentava, mais eu ouvia: ''não''. Mas aquela tarde eu decidi que iria ouvir um ''sim''. Brincamos o dia inteiro, contei histórias, nadamos na piscina infantil dela (eu, que mal cabia, com ela e as duas irmãs).
Fizemos comida, doces dos mais variados, bolos, brigadeiros. Cantamos músicas infantis, vimos dvds, pulamos em cima da cama, dançamos.
Quando íamos dormir, ela - a dona dos nãos - resolveu pedir que a embalasse em meus braços. Estava cansada, chorandinho. Sabe quando queremos dormir e temos que ficar trabalhando, mesmo que os olhos insistam em tentar fechar? Ela queria ficar acordada, sem conseguir. E isso lhe trazia como consequência um humor alterado.
Arrisquei: ''Você quer que eu a pegue no colo?''. Silêncio. Voltou a chorar, pedindo que eu a embalasse. Repeti a pergunta. Ela me fitou. Sabia que eu queria ouvir um ''sim''. Mas ela não dizia sim. O que fazer? Imagino as centenas de palavras que passaram em segundos por aquela cabecinha cheia de personalidade!
Foi quando pedi que me dissesse ''sim''. E abri os braços. Ela começou a subir. Viu que parei e a fiquei olhando e antes que eu a colocasse novamente no chão, disparou o seu primeiro ''sim''. A comemoração foi digna de uma festa de aniversário. Beijei-a por várias vezes e a abracei. Dormimos juntas, na cama.
Ainda hoje, ela me diz sim. Mas somente a mim. Somente se quase implorar. Até porque seu vocabulário ainda tem mais negativas para oferecer. E isso, no auge de sua teimosia - aos quase dois aninhos de idade.


