LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Não vou mais dizer a verdade. Histórias recheadas com detalhes absurdos - e na maioria das vezes mentirosos - são muito mais interessantes. Encontrei uma amiga no shopping, marcamos um café, mas ela tinha médico. Na saída, tropeçou e quebrou o pé em oito lugares. Simples assim. Mas ninguém acreditou nisso. Era mais fácil dizer que ela havia caído de um parapente enquanto estava praticando free style na Rua XV, desviando dos pedestres. Então passei alguns dias a atiçar a imaginação pensando o que ela poderia dizer aos amigos - e aos nem conhecidos - para explicar os 90 dias sem poder colocar o pé no chão.
Outro dia, aconteceu comigo. Não quebrei o pé, mas um portão eletrônico me atacou e machucou a minha mão. Foi bem mais simples que isso, claro, mas isso não importa. Caso contrário não seria digno de crônica. E o assunto com os amigos também acabaria em segundos. Cheguei na redação com o punho enfaixado e o fotógrafo sugeriu algo sobre o resultado das brigas conjugais. Não quis levar a brincadeira adiante, mas até que rende uma boa desculpa.
Depois de ouvir pela centésima vez: ''O que aconteceu com a sua mão?'', eu apenas responderia: ''Briguei com meu marido, mas ele está bem pior, acredite''. ''Ah, nada demais. Estava numa ligação com o telemarketing de uma operadora telefônica e joguei o celular na parede. Errei a distância e acabei atingindo a viga de concreto. O problema foi chamar o pedreiro para recolher os escombros. Mas a minha mão está bem, obrigada.''
''Você não vai acreditar (histórias que começam assim são as melhores): estava no carro seguindo pela Vicente Machado no final da tarde. Sei que é perigoso, mas precisei usar o telefone e como estava muito quente, a janela estava aberta. Um garoto tentou arrancar o celular da minha mão no sinaleiro e eu andei quatro quadras com ele pendurado pela janela, já que eu não larguei o telefone de jeito nenhum. Ele não se machucou, mas meu pulso torceu um pouquinho...''. Bem mais fácil de acreditar do que reduzir a conversa a um simples: ''Torci enquanto fechava o portão''. A verdade é desinteressante.


