LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Quem pode imaginar que um assalto tradicional num semáforo possa terminar numa conversa amistosa, quase como de dois bons amigos? Guardadas as devidas proporções, foi o que aconteceu comigo.
Estava dirigindo meu carro numa terça-feira. Daquelas em que saio da Escola de Governo, vou para o estacionamento e caminho até a redação da Folha. Quase na esquina do prédio do jornal, entre as ruas Visconde do Rio Branco e Carlos de Carvalho, um rapaz começa a se aproximar do carro.
Dizem que mulher tem sexto sentido. Acho mesmo que tem. Sabia que seria assaltada, mas esperei o rapaz chegar perto. Não fechei o vidro. Ele me olhou, mais ou menos uns 19 anos, e foi logo avisando que estava armado e que queria o dinheiro rapidamente. Não dei. Ele começou a engrossar a voz e dizer que não estava brincando.
Fui explicando que não tinha dinheiro algum para dar a ele. Foi quando me lembrei que carregava algumas moedas no lugar onde os fumantes jogam as cinzas dos seus cigarros. Enquanto disse que deveria ter umas moedas, ele tentava me apressar.
Não sou muito boa com ordens. Na verdade, eu as detesto. Olhei séria para ele, sem lhe dar as moedas, e comecei a dizer que não gostava do jeito que ele se dirigia a mim, que odiava que tentassem me intimidar e que tinha a certeza que ele não estava armado coisa alguma. Um chute.
Mas parece que o desarmei. Ele deu um sorriso, quase se debruçou na minha janela e começou a me perguntar o que poderia fazer, como deveria agir em casos como aquele - em que precisava de dinheiro e pedir, muitas vezes, não dava resultado. Comecei a ensinar que o adequado era ser educado, pedir sempre, sem ser grosseiro com a pessoa que poderia lhe ajudar.
O semáforo abriu. Soltei as moedas na mão do rapaz. Ele não tirava os olhos dos meus olhos. Quem via de longe, não mais imaginava que se tratava de um assalto.
Ele fechou as mãos e repetia sem parar: ''Deus te abençoe, Deus te abençoe''. Retribui a gentileza da bênção me ofertada e segui. As pernas ainda bambas. Pensei em tudo que havia acontecido. Não parece um absurdo passar em alguns segundos de assaltada a conselheira? O rosto do rapaz ficou em minha memória. E seu olhar doce - levado a cobrar dinheiro como se as pessoas fossem culpadas pelo descaso social com os que não conseguem trabalho, não recebem atenção, não podem ser orientados...
... como se fossem? Talvez sejamos culpados mesmo por não dar nossa parcela de contribuição.


