Tenho uma amiga que tem um café. É um desses locais charmosos, com uma decoração bacana e que reúne gente de todos os estilos. Guloseimas refinadas e saborosas enfeitam o balcão. Mas não são os doces e salgados, nem tampouco os inúmeros tipos de café existentes no cardápio, que despertam curiosidade. É bom sentar à mesa do canto, discretamente solicitar um cafezinho - ''com leite, por favor'' - e observar. Aí sim, a diversão começa.
A cada pessoa que entra, uma nova mania e obsessão se revela. Certa vez um rapaz entrou ali acompanhado por uma moça. Falava ao celular desde o momento que sentou até quando saiu, muito bravo porque o pedido não era exatamente o que ele queria. O problema é que, como ele não desligava o telefone, não era possível saber exatamente o seu pedido, feito com gestos e sons guturais. Foi embora com a menina, sempre calada, atrás. O café esfriou sozinho na mesa.
Um grupo de estrangeiros costuma se encontrar por ali. Uma família grande que pede para colocar a mesa na calçada e solicita apenas um cafezinho. Passam boa parte do tempo na ''reunião'', falando alto, sorrindo, brigando às vezes, discutindo em torno da pequenina e solitária xícara fumegante. Romances já iniciaram no café e terminaram algumas xícaras mais tarde. Ou continuam quentes. Amizades se esquentam e se refestelam no café, que a cada dia traz ingredientes para novas histórias.
Alguns pedidos chegam furtivos, rápidos, um café simples, ''preto''. Mas todos não o são? Outros são precisos, delicados, ''só um cafezinho''. Há ainda os que são carregados de informação. ''Um café pequeno em uma xícara grande, 3/4 de leite, por favor, nem tão frio, nem tão quente. Sem nata. Sem açúcar. Tem adoçante sem aspartame? Açúcar mascavo sem bolinhas?''.
A despeito de todos os pedidos, estranhos ou delicados, certeiros ou duvidosos, ainda é mais divertido observar - e aprender - como a proprietária atende com consideração e humor as solicitações. As diferenças de cada pedido são anotadas num caderninho imaginário, mas sempre, quando a pessoa retorna, a bebida vai estar lá, do mesmo jeito que foi pedida a primeira vez. O que faz as pessoas voltarem, sentarem, e repetirem, sem se dar conta, o ritual da solicitação. Porque, acompanhado da bebida, vem um ingrediente difícil de encontrar nos estabelecimentos comerciais, seja em grão ou solúvel: a atenção.

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