A memória é algo maravilhoso e traiçoeiro. A minha, por exemplo, vive me pregando peças, principalmente quando insisto em me refugiar nas suas ilusões. Costumo visitar com frequência - em sonhos - os cenários da minha infância, como a casa onde cresci e o colégio onde estudei os primeiros anos. Nessas viagens, os lugares visitados continuam do mesmo jeitinho; as mesmas pinhas com as quais faziamos intermináveis batalhas na hora do recreio, o mesmo cheiro do meu cachorro, que comia cascas de bananas e um dia fugiu sem deixar rastros.
Ao despertar, a sensação que tenho é que, em algum lugar escondido, o tempo mantém sua mesma atmosfera, alheio à dinâmica da ampulheta que transforma constantemente o presente em passado. Nessas bolhas, onde a lembrança guarda suas formas em matéria volátil, os fatos são constantemente rearranjados. Colorimos a memória com os pincéis que nós mesmos escolhemos.
A bolha só explode quando confrontamos essa matéria imagética com a áspera realidade. A casa da minha infância, por exemplo, foi aos poucos sendo desfigurada, primeiro virou uma loja de doces, que manteve parte da estrutura original, permitindo alguma referência do olhar, depois foi demolida e em seu lugar foram erguidos outros conjuntos. O comércio em volta se transformou e rapidamente aquele local já não era mais meu. Virou uma paisagem estranha.
O mesmo ocorreu nesse fim de semana, quando visitei o colégio. Já imaginava que teria surpresas desagradáveis, já que ele foi comprado por uma grande e moderna rede de ensino, que realizou ali várias mudanças. O campo de futebol, que no filme da minha infância vivia coberto pela branca geada, cheio de crianças correndo, foi transformado num estacionamento. O cheiro de madeira dos corredores foi substituido por outro, asséptico, e até as pedrinhas do chão com as quais jogavamos três marias desapareceram completamente.
Se soubesse que iria encontrar esse novo cenário, talvez preferisse não vê-lo. Continuaria assim intocado o fio da memória, e de tempos em tempos poderia me aventurar em um passeio pela minha linda infância, que conserva seus contornos cada vez menos nítidos.

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