Desde cedo nos ensinam que o bom comportamento é recompensado. Ainda muito pequenos somos levados a acreditar que só nos resta mesmo ser ‘‘bonzinhos’’, caso contrário, ‘‘Papai Noel não trará o presente que você pediu’’, ‘‘Você não vai passar de ano’’, ‘‘Seu pai não vai te dar o carro no seu aniversário’’ e por aí vai.
  Claro, indicar o caminho do bem e esforçar-se para que os jovens permaneçam nele é responsabilidade (ou deveria ser) de adultos que, conscientes de sua condição de cidadãos, querem contribuir para que a sociedade se desenvolva de modo equilibrado. Todos queremos um mundo melhor.
  Mas, a complexidade do ser humano, entre tantos outros fatores, torna a nossa realidade bem diferente daquela que gostaríamos. Portanto, ser ‘‘bom’’, o que inicialmente parece ser o caminho natural, torna-se, por vezes, um grande obstáculo para que algumas pessoas levem suas vidas satisfatoriamente.
  Tudo porque há quem interprete o ‘‘seja bom’’ – responsável, honesto, ético etc – como ‘‘seja bonzinho’’ – evite dizer não, não contrarie, não magoe, perdoe ainda que te ofendam etc – e esse mal-entendido, quase sempre, acaba em sofrimento. E as mulheres parecem ser mais atingidas por essa espécie de ‘‘síndrome’’.
  ‘‘Bonzinhos e boazinhas’’ têm a esperança de que, se continuarem simplesmente fazendo tudo o que os outros querem, serão aceitos, compreendidos, bem-sucedidos e, acima de tudo isso, amados. E então, as frustrações vão sendo engolidas, as tristezas vão sendo somadas, as respostas vão deixando de ser ditas a quem merece. ‘‘Tudo bem’’, dizem, ‘‘no final, seremos premiados’’.
  Admito que me identifico com vários ‘‘comportamentos bon-zinhos’’. Entretanto, novamente, meu filho de seis anos me fez enxergar essa questão com um novo olhar. Durante uma conversa sobre a escola, ele comentou que uma colega por quem ele não tem muita simpatia, ficava o tempo todo ao lado dele, insistindo para fazer os trabalhos em dupla.
  Sem pensar muito, argumentei: ‘‘Ah, meu filho, por que você está reclamando? Ela é tão boazinha...’’. Ao que ele, direto como sempre, respondeu: ‘‘Mãe, eu não posso gostar dela só por ela ser boazinha pra mim’’. Tive de concordar com ele e espero ter aprendido a lição de uma vez por todas.

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