Quando cai em mãos erradas, qualquer tipo de autoridade torna-se um grande perigo para a sociedade. Que o diga o rapaz que foi brutalmente assassinado por seguranças particulares, ou então os motoristas que receberam injustamente várias multas por um desafeto que tinha uma filha agente de trânsito. Sem poder controlar a si mesmos - seus impulsos e frustrações -, eles ganham poder sobre outras pessoas e é aí que a coisa se complica.
Não lembro bem se foi um rei ou um faraó, que afirmava que antes de controlar seu povo, era preciso controlar os instintos primitivos que regem todos os seres humanos. Não precisamos nem ir tão longe, até as pirâmides de Gizé, para encontrar flagrantes desses abusos, qualquer pequena parcela de poder pode transformar um zé ninguém em um mini-déspota.
Lembro-me de um amigo que encontrou seu mini-déspota quando decidiu tirar a carteira de motorista. O examinador que iria acompanhá-lo no teste de direção tinha um grande poder sobre ele. Naquela breve circunstância, ele poderia decidir se esse amigo poderia ou não se tornar motorista. Durante o exame, tudo certo, mas depois da prova, enquanto decidia se o rapaz seria aprovado ou não (seus pontos estavam no limite da reprovação) esse examinador teria se transfigurado.
Ele aproveitou o momento em que meu amigo se encontrava refém da sua simpatia para tripudiar e fazer galhofa. Dizia que algumas pessoas têm o dom de dirigir, e que o rapaz não se incluia nesse time. Perguntou se era músico, pois tamanha inaptidão para a condução de veículos só poderia compensar algum atributo artístico. Meu amigo até pensou em responder-lhe com alguma ironia, mas não o fez, engoliu as piadinhas com a saliva e soltou um sorriso amarelo, afinal, a autoridade ali poderia reprová-lo. Depois de outras observações desabonadoras, o examinador acabou aprovando o rapaz, que hoje dirige certinho e até onde eu sei, nunca causou nenhum acidente.

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