LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Pelo que pude contar, eram seis crianças barulhentas - quatro meninas e dois meninos - em um coletivo que seguia para a região central de Curitiba. Até aí, nenhuma novidade, a não ser pelo fato que viajavam sozinhas e a mais velha não parecia ter mais de 13 anos. O menorzinho, de uns cinco ou seis anos, era o mais ousado do grupo. A cada parada, ameaçava descer sozinho, ainda que o dedo polegar escondido entre os dentes entregasse sua fragilidade infantil.
Entre uma parada e outra, uma ou outra menina levantava do banco, arriscava alguns desengonçados passos de dança e combinavam entre elas quem faria par com quem. Poderia ser uma apresentação da escola e antes fosse. A coreografia desajeitada era a estratégia para chamar a atenção de motoristas que parassem no sinaleiro do cruzamento da Avenida Sete de Setembro com a Rua Coronel Dulcídio, logo ali no Batel, bairro nobre da Capital. ''Tem uma moeda aí, tio?''.
Algumas estações-tubo antes do destino final, um veículo cruza o caminho do ônibus, em sentido oposto, e causa alvoroço entre o grupo. Era uma Kombi de resgate da Fundação de Ação Social (FAS). Cheia de si, como quem desafiasse um leão dentro de uma jaula, uma das meninas sobe no banco e bota a cara na janela, talvez, com vontade de gritar: ''Ei, seus manés! estamos aqui''. Mas, ela se limita a ficar só olhando a ''patrulha'' passar sem atrapalhar os planos dela e de seus amigos: ficar no sinaleiro o dia todo para ganhar uns trocados. ''Tem aquela mulher lá que deu comida pra gente aquele dia'', lembra ela, arquitetando com as outras uma forma de garantir o almoço.
Incomodado com a cena, assim como eu, um senhor comenta: ''Que dó dessas crianças. Que futuro vão ter?''. E um silêncio pertubador se segue à pergunta que não tem resposta. ''Meu filho vai quase todos os domingos a um orfanato, onde vivem nove meninas. Faz almoço, leva filmes. A maioria, lá, foi vítima de abuso sexual pelos próprios familiares'', conta o passageiro, tentando continuar a conversa.
Do trajeto de pouco mais de 10 minutos, restaram-me duas constatações. Que bom que ainda tem gente que, ao menos, fica indignada com a situação de abandono e miséria que vivem muitas crianças. Que bom que ainda tem gente disposta a um gesto que, ao menos, leve a elas um pouco de alegria.


