O menino não mede nem um metro e meio de altura, aparenta ter uns 12 anos de idade e outro dia carregava dois sacos quase do tamanho dele, cheios de latinhas e outros materiais. Pelo esforço e a dificuldade com que ele tentava chegar até a esquina, a carga devia estar pesada. Não foi a primeira vez que o vi carregando tanto peso sozinho e a cada dia que passo por ele perto da minha casa o choque diante da cena é o mesmo.
Já o vi conversando com o funcionário de um dos prédios da rua e o menino parece esperto e bem articulado. Não sei se vai à escola, onde mora, se tem família ou amigos, mas que é forte e persistente disso eu não tenho dúvida. Não é preciso ser muito bem informado para saber que, como ele, outros tantos meninos e meninas estão por aí vivendo do lixo enquanto o corpo e a mente se desenvolvem e se preparam para a vida adulta. E que vida adulta eles terão?
Lembrei da história de um jovem africano, de Serra Leoa, que conta num livro escrito por ele como foi reabilitado por um programa da Unesco depois de perder a família durante a guerra civil e ter sido aliciado pelo exército local como soldado quando tinha 12 anos. Ele nasceu no mesmo ano que eu e enquanto eu brincava com minhas bonecas ele matava rebeldes em nome do governo de seu país. Ele teve a sorte de escapar e hoje ajuda outras crianças que, como ele foi, são vítimas dos absurdos dos adultos.
Gostaria de um dia também saber o que fazer para mudar a realidade de uma criança pelo menos, do menino que carrega quilos e quilos de latas na rua da minha casa. Mas até lá eu também terei que enfrentar uma guerra, esta particular, contra minha própria covardia.

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