Parece que foi ontem. Essa expressão nunca esteve tão em alta no meu dia-a-dia. Afinal, com menos de 40 anos já sou uma representante ''do século passado'' e, confesso, não consigo administrar muito bem essa idéia. A impressão é de que tudo aquilo que fazia sentido - escritores, compositores, pensadores e suas respectivas idéias e criações - está absolutamente ultrapassado. É preciso renovar-se a todo custo e está sendo bem complicado.
Você vai dizer que estou exagerando porque, obviamente, só quem nasceu a partir de 2001 é uma autêntica criatura do século 21. Esse é o ponto. Eu moro com uma dessas ''criaturinhas'' que não conseguem imaginar a vida sem celular, DVD, jogos eletrônicos, MP3, internet e tv a cabo. É uma delícia ver a cara de espanto deles - ''mãe, que computador esquisito é esse?'', disse ele, outro dia, apontando para a minha máquina de escrever Remington Ipanema, um famoso modelo dos anos 80 -, mas é também um suplício ter de explicar ''como era antigamente'' quase todo dia.
Que coisa. Isso era o que eu perguntava para a minha avó Marieta, a única que conheci. Mas eu tinha 10 anos e ela, 81. Era ''aceitável'' eu olhar para ela como alguém do século passado - e era mesmo, nasceu em 1898. A curiosidade sobre ''o tempo dela'' era imensa. Entretanto, ocupar, ainda que vagamente, esse lugar de porta-voz do século passado para o meu filho e seus irrequietos amigos é um pouco demais.
E a escola ainda contribui para aumentar minha ansiedade em relação a esse assunto tão delicado - tempo, idade, amadurecimento. Esta semana a professora resolveu fazer uma exposição com ''antiguidades''. Como sei que ela também está na faixa dos 30, interpretei como sendo uma forma de ''vingança''. O que não deve é faltar pergunta para a coitada também.
Na falta de uma antiguidade melhor, enviei um gravador, daqueles com fita cassete (lembra?), o meu bom companheiro de reportagens. Ainda expliquei ao meu filho que aquele aparelho continua sendo usado (não só por mim, ok?), que talvez não servisse para a mostra. O meu blablablá foi em vão.
Quando voltou, estava feliz da vida: ''Mãe, essa antiguidade foi 'irada'. Nenhum dos meus amigos conhecia e todos quiseram gravar a voz. Depois, a tia pediu para a gente desenhar aquilo de que tinha gostado mais e todos desenharam o seu gravador!'' Só me restou ligar para o analista e marcar uma sessão extra.

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