LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Adriana De Cunto<br> Editora 
Caminhar é bom para a saúde e para o espírito. Sempre que posso costumo andar ou no Parque Barigui, o mais próximo da minha casa, ou pela calçada que beira a pista do Expresso. Escolho o caminho dependendo do humor. Se eu tiver em um daqueles dias mais introspectivos, saio acompanhando a pista do ônibus. O caminho é mais deserto, cheio de árvores e a gente só tem que tomar cuidado para não ceder à tentação de sair andando pela própria pista do Expresso - hábito perigoso, mas bastante comum por aqui.
Por outro lado, se o meu estado de espírito é ''up'', sigo mesmo pelo Barigui. Aos domingos, principalmente, é preciso bom astral para enfrentar o mais popular parque de Curitiba. Primeiro, é necessário achar um lugar para estacionar o carro. Depois, não dá para esquecer de levar um trocado para o ''flanelinha''. Além disso, tem que disputar a pista de cooper com muita, muita gente - sem contar os cães de estimação.
Foi o Barigui que escolhi para andar na manhã do último domingo. Tento manter o ritmo do exercício, mas começo a ''viajar'' quando presto atenção nos tipos mais diferentes que vão surgindo à minha frente. Caminho poucos metros e já me deparo com o Oil Man, aquele sujeito que anda de bicicleta pela cidade inteira, usando apenas uma sunga (faça calor ou frio).
Uma mulher passa levando quatro cachorros pela corrente. Ou será que são os cães que a levam para passear? Mais à frente, surge um rapaz empolgado na caminhada, carregando em uma mão a cuia de chimarrão e na outra uma garrafa térmica. Não parava de andar nem para abastecer a cuia com água quente.
Mas à frente, um moço solitário treina tacadas de golfe. Finge concentração mesmo quando é incomodado por cães vira-latas que corriam atrás das pacas que vivem no banhado do Barigui.
Em meio a tantas esquisitices, resolvo acompanhar em voz alta - sem constrangimento - a música que toca no meu walkman e que há séculos não ouvia.
''I say a little prayer for you. Forever, forever you'll stay in my heart''. Vejo um casal se beijando. Ela passa a mão no bumbum dele. Eu continuo a relembrar os bons tempos com Dionne Warwick: ''I run for the bus, dear. While riding I think of us, dear''. Um rapaz corre de marcha a ré, quase tromba em uma árvore. Levanto a voz: ''My darling believe me. For me there is no one but you. Please love me too. Answer my prayer''. Um homem passa e sorri da minha extravagância. Se ele achou estranho eu cantar N''I say a little prayer for you''T, imagine quando encontrar o homem levando a cuia de chimarrão e a garrafa térmica.


