Chego em casa depois do trabalho e me deparo com a confusão armada: meu filho correndo de um lado para o outro, controle remoto na mão, quase desnorteado porque não conseguia assistir ao programa preferido. Vou verificar e comprovo que havia um problema técnico. Não conseguia sintonizar nenhum dos canais. Ligo para a operadora da tv e sou informada de que o defeito foi provocado pelo rompimento de um cabo e atinge toda a região.
  Meu filho ensaia fazer uma birra, começa a reclamar e eu me dou conta de que, assim como grande parte das crianças, ele tornou-se ‘‘um dependente’’ da tal caixa eletrônica de ilusões. Logo ele, que não bebe refrigerante, recusa hambúrgueres com veemência, gosta de livros, de natureza, e é responsável até demais para um garoto de apenas seis anos.
  Antes de dar início àquela conhecida enxurrada de pensamentos culposos – ‘‘onde foi que eu errei?’’, ‘‘será que ainda tem jeito?’’, – resolvi tomar uma atitude. Nada de sermões. Apenas liguei o aparelho de CD e, instantes depois, estávamos rindo com as ‘‘performances’’ dele como dançarino, que incluíam alguns pulos no sofá – tudo bem, não era o momento de iniciar uma crise.
  Fomos dormir e o sinal da tv ainda não havia sido restabelecido. Enquanto o via adormecer tranqüilamente, abraçado ao cachorro de pano que o acompanha desde sempre, fiquei pensando sobre a possibilidade de desligar a tv para sempre. Ou ao menos iniciar uma campanha doméstica pelo uso parcimonioso deste aparelho, ao mesmo tempo útil e controverso. Quero retomar atividades mais simples e mais interessantes, que muitas vezes são deixadas de lado por pura preguiça ou comodismo. Afinal, como disse outro dia uma entrevistada, que decidiu trilhar o caminho da vida saudável,‘‘a tv rouba a nossa energia’’.

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