É mesmo o fim dos tempos. Não respeitam mais nem o leite das crianças. Quando chegaram às prateleiras dos supermercados as caixinhas de leite longa vida tinham como trunfo a promessa de maior qualidade do produto, que nem precisava mais ser fervido. Já vinha pronto para ir para o copo ou a caneca.
Na época, eu não gostei muito, achava o leite de caixinha meio aguado. Eu preferia o de saquinho. Sem contar que acabou a diversão de ver aquela espuma branquinha subindo na leiteira e transbordando no fogão num minuto de descuido da minha mãe.
Mas a praticidade ganhou a briga e hoje nem lembro mais há quanto tempo não vejo aqueles pacotinhos classificados em A, B e C. O leite agora se divide em outras categorias: os com ou os sem soda caústica e água oxigenada. É demais, né. Para não perder dinheiro por causa do produto de má qualidade, cooperativas tornam o leite que vendem ainda pior, desde que ninguém perceba.
Não gosto de ser alarmista mas, do jeito que as coisas vão, daqui a pouco vamos ter que voltar a ter nossa própria vaca em casa, como no tempo da minha avó. Não só a vaca, mas a granja, a horta, o pomar. O crescimento do mercado de produtos orgânicos já aponta para uma insatisfação das pessoas quanto à comida carregada de toxinas.
Meu palpite é de que um dia vamos voltar a buscar leite em galões na chácara de alguém e colher as frutas no quintal mais próximo, com direito a pendurar a conta, na melhor tradição do fiado. Desde que o produto seja de confiança. Tudo no fio do bigode.

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