LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
''O fulano roubou pão na casa do João'', gritava o coro dentro de um ônibus escolar que passava ao meu lado ontem pela manhã enquanto eu caminhava até o trabalho. Como o trânsito estava lento, a cantoria veio me acompanhando por mais um tempo: ''O beltrano roubou pão na casa do João''.
Lembrei do tempo em que eu era a passageira do transporte escolar, das brincadeiras no trajeto, da minha irmã mais nova enjoando e passando mal porque detestava ir para a escola de ônibus. ''A Denise roubou pão na casa do João. Quem, eu? Você. Eu não. Então quem foi? A Aninha roubou pão na casa do João...'' Achei curioso como 20 anos depois a brincadeira ainda está aí. Brincadeira essa com a qual, provavelmente, as minhas professoras do primário também haviam se divertido 20 anos antes.
Estamos acostumados a ouvir que hoje tudo é muito acelerado, descartável. Nada disso. Ainda que os brinquedos estejam mais pirotécnicos e sofisticados, criança é sempre criança, se diverte de todo jeito, em qualquer lugar, cria as próprias brincadeiras. O mundo imaginário a que elas têm acesso continua lá e vai continuar sempre. Essa história de que a tecnologia substitui a imaginação é coisa de adulto chato. As duas coisas podem muito bem conviver tranquilamente.
As mentes que desenvolvem os jogos eletrônicos consumidos pelas crianças de agora também já ''roubaram pão na casa do João''. Eu fui da geração que viveu o ''boom'' do videogame. Uma coisa não anula a outra. E não me venham com aquelas versões politicamente corretas para essas cantigas, como fizeram recentemente com o ''Atirei o pau no gato'' e outras. No que depender de mim e dos filhos que eu tiver um dia o Cravo vai continuar bringando com a Rosa por muito tempo ainda.


