LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de outubro de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
A capacidade do brasileiro de rir da própria desgraça não tem precedentes. Onde qualquer outra nação encontraria motivo para queimar pneus, iniciar uma revolução ou cair na melancolia geral, o brasileiro vê uma razão a mais para fazer troça.
Basta lembrar do recente acidente com o avião da TAM, em São Paulo. Após os momentos iniciais de estupefação diante da tragédia, logo surgiram as primeiras piadinhas.
Lembro do espanto de uma portuguesa ao ouvir uma anedota sobre a morte de Ayrton Senna. Diante do gargalhar do interlocutor, ela indagou se o piloto não era querido pela população. ''Era sim, e muito'', respondi. ''Então por que ficam a fazer gabolices, ó pá!?''. Porque o brasileiro é gabola mesmo, deveria ter respondido. Porque essa é a maneira que encontramos para lidar com a nossa dor. A risada acalma e de certa forma explica que é preciso contraste no estado das coisas. Não se trata de desrespeito, o piadista que faz graça com a desgraça alheia procura uma forma de se evadir da tristeza que sente. Nesses casos a piada é uma forma sincera de lamento.
Em outros episódios trágicos - como a morte de Cazuza, Renato Russo, dos Mamonas Assassinas, o acidente do avião da GOL no ano passado - foi a mesma coisa, a inteligência marota do brasileiro se supera a cada nova tragédia trazendo confusão entre as lágrimas de dor e as de riso. Talvez esteja aí um dos segredos estruturais da índole nacional: um limite tênue onde o que é triste pode virar motivo de graça.
Não temos um humorista cego que satiriza a própria situação? E o colunista que faz rir das nossas desgraças políticas? São coisas boas essas? Claro que não, mas continuariam ruins com ou sem a possibilidade cômica. Se não conseguimos arrumar o país para que este só nos dê motivos de alegria, que sejamos felizes na tragédia.


