LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de outubro de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Trabalho no escritório, em casa. Minha filha brinca no quarto ao lado, sozinha. Escrevo uma história de ficção, uma pausa nas notícias e fatos que, muitas vezes, de verdade têm pouco. Escuto vozes, mas não são os personagens da minha história. Elas vêm do quarto da minha filha. Levanto e, devagar, vou espionar. Ela está sentada e enfileirou as bonecas para ensinar mais uma lição da escola onde ela é professora. Minha filha tem três anos. Escuto escondida um pouco da aula. Riso bobo aparece no meu rosto.
Volto ao trabalho. Prometi entregar minha história em pouco tempo. Fala de um homem que não consegue decidir entre as mentiras de um relacionamento convencional e as verdades não muito confortáveis da vida solitária. A vida é besta. O homem não se casa e também não é feliz. E o ''para sempre'' ainda nem existe nessa história. Muito menos na vida real. Mas meu raciocínio é mais uma vez interrompido por vozes. Dessa vez acompanhada por passos. ''Venham! Todos em fila, atrás de mim'', grita a vozinha autoritária. E minha pequena segue pelo corredor em direção à sala, seguida pela fileira de amigos imaginários. É hora do lanche.
A diferença entre minha história e minha pequena tagarela é pouca. Tenho ao meu lado meus personagens, minhas relações imaginárias que vão bem além da minha convivência. Ela tem muitos amigos reais, mas com sua pouca idade (mas nem tão pouco conhecimento) talvez ainda não entenda o limite tênue entre fantasia e realidade. Mas já sabe uma coisa: a solidão é só um estado de espírito. Sempre tem alguém ao nosso lado.


