No habitual encontro de quinta-feira, estávamos eu e duas amigas discutindo qual seria o melhor presente para uma colega do trabalho que iria casar dali a poucas semanas. Uma sugeriu que fizéssemos ''uma vaquinha'' e comprássemos, em grupo, um dos itens mais caros da lista de presentes, deixada em uma badalada loja de decoração da cidade. ''Assim a gente não vai fazer feio'', dizia ela.
A outra, mais pragmática, defendia a idéia de comprarmos ''algo útil e duradouro'', como um eletrodoméstico. ''Objetos decorativos quebram logo. Na primeira briga, o casal começa a atirar coisas um no outro e... pronto. Lá se foi a linda jarra de flores, o porta-retrato, o abajur'', argumentava.
Enquanto Miss Deslumbre e Sra. Desiludida se engalfinham num debate sem fim, eu peço outra porção de petiscos. Nesse momento, surge, correndo, ''o quarto elemento'' do grupo. A mais jovem da turma senta, chateada, cotovelos à mesa. o rosto apoiado nas mãos: ''Vocês não vão acreditar no que me aconteceu''. E esse começo é suficiente para que surja, subitamente, o silêncio.
Ela, que desistiu do emprego na firma da família para atuar como produtora de eventos, começava a vivenciar os ''percalços'' da nova profissão. Naquela tarde, começara a buscar orçamentos em gráficas para a confecção de convites para um encontro empresarial. Mal entrou na primeira e recebeu ''o insulto''. Depois de ouvir minha amiga dizer o que queria, o atendente do lugar, muito solícito, não hesitou em perguntar: ''São convites de casamento, né?''
''Ah, não...'', dissemos nós, em uníssono. Minha amiga, desconsolada, não parava de dizer que aquilo era um absurdo. Foi o suficiente para emendarmos uma frase de efeito na outra. ''Em pleno século 21, como é que os homens ainda pensam assim?!'', ''Depois de tudo o que fizemos, ainda somos vistas apenas como casadoiras?'', ''Que coisa mais antiquada!''...
Em meio aos comentários quase raivosos, lembramos, de repente, do motivo principal do encontro daquele dia: decidir a compra de um presente de casamento. ''Que ironia!'', pensei. Uma idéia me passou pela cabeça. ''E se nós...?'', comecei. Nem foi preciso explicar. Desistimos do casamento. Levantamos rapidamente, pagamos a conta e fomos ''torrar'' no shopping o dinheiro do presente. A colega de trabalho não teria nossa presença em sua festa. Mas, quem sabe, iremos à ''despedida de solteira'', evento que costuma ser muito mais divertido.

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