Mais uma vez, me vejo em um local público sendo obrigada a ouvir a conversa alheia. E, novamente, o conteúdo merecia ser compartilhado com você, leitor, neste espaço que procuro utilizar para provocar reflexões sobre o cotidiano.
Lá estava eu, numa quarta-feira, depois das 18 horas, na sala de espera de uma clínica, quando ela entrou esbaforida, falando ao celular, acompanhada por uma senhora. Pela semelhança dos traços imaginei serem mãe e filha. Ela conversava em inglês. Chamada encerrada, ela dirige-se até a recepcionista e informa que tem horário marcado com determinado profissional.
Mal a moça começa a perguntar os dados pessoais, surge outra chamada no celular. Ela atende, vai caminhando em direção à varanda enquanto fala em alemão. Quase dez minutos de conversa depois, ela consegue, finalmente, preencher a ficha e retorna para o sofá. O telefone toca pela terceira vez em menos de 20 minutos. Ela e a mulher que a acompanhava se entreolham. E o bate-papo, a essa altura, é em francês.
Os outros ocupantes do recinto já não se continham de curiosidade. Que mulher seria aquela? Depois de ouvir parcialmente a primeira conversa, em inglês, deduzi que se tratava de um assunto comercial e que ela, provavelmente, era a executiva de alguma multinacional.
Concluída a terceira ligação, mãe e filha sorriem, e a senhora comenta: ''Isso é que é prestígio, querida. Tenho muito orgulho de você''. Ela então, ignorando a ''platéia'', admite que ''está se sentindo a tal'' e passa a contar à mulher o motivo de tantas ligações internacionais: ela acabara de resolver um problema para um importante cliente da companhia.
Assistindo à cena, me lembrei de Dona Benedita. Mineira, 94 anos, descendente de escravos, radicada há décadas em Curitiba. Mesmo analfabeta, ela é procurada diariamente por homens, mulheres e crianças em busca de seu sorriso largo, suas preces e conselhos. No seu mundo, não é preciso conhecer idiomas. Ela ''fala diretamente com Deus'' por meio da Bíblia. E, acima de tudo, ela é livre. Seu sucesso supera qualquer cargo temporário. Deixei o local sorrindo, aliviada, concluindo que, definitivamente, ''prestígio'' é algo muito relativo.

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