Ficar parado, atrás de alguém, sabendo que muitas outras pessoas estão se aproximando para ficarem enfileiradas atrás de você é uma sensação, no mínimo, desconfortante. Fila para entrar em restaurante, então, me tira do sério. Mas, há dias em que a gente não consegue escapar e ontem foi um deles.
  Passava um pouco do meio-dia e me vi sendo ‘‘envolvida’’ por uma fila à porta de um restaurante no Centro. Desses em que a gente mesmo vai se servindo. Pensei na ironia da situação, afinal, essa modalidade surgiu como alteranativa ‘‘rápida’’. Sem querer demorar ainda mais procurando outro local, acabei me conformando.
  Acabei prestando atenção à conversa das duas jovens que aguardavam atrás de mim. O diálogo me fez reconsiderar meu conceito em relação a filas. O tal ‘‘tempo perdido’’ pode se transformar em um ‘‘momento de aprendizado’’.
  A morena e a loura, aparentando uns 25 anos, trabalhavam juntas. A primeira não parava de fazer perguntas à amiga: ‘‘Você está mesmo pensando em sair da empresa?’’, ‘‘Já decidiu aonde vai passar as férias?’’ e ia por aí. As respostas eram evasivas.
  A conversa chegou ao campo afetivo. A loura contou que estava namorando um homem de 30 anos, divorciado e pai de um menino. A outra ficou escandalizada. ‘‘Homem mais velho e com filho? Nem pensar’’. E despejou aquela série de clichês sobre como devem ser os relacionamentos ideais. A situação piorou quando a amiga disse que a criança não atrapalhava e que a ex-mulher do rapaz era bacana, que eles continuaram amigos depois da separação. ‘‘O quê? Isso não existe. Eles devem ter um caso. Acorda, amiga!’’ A outra, claro, nada mais disse.
  Minha vez chegou e eu almocei pensando em como criamos amarras à nossa felicidade. Fiquei imaginando quantas experiências aquela menina certamente deixará de viver, quantas pessoas legais deixará de encontrar e quantos lugares interessantes deixará de conhecer ao impor a si mesma tantos impedimentos. Mas, atire a primeira pedra quem nunca, por puro medo, nunca enveredou por esse caminho.

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