LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
A comunicação humana é um fenômeno que continua rendendo assunto para diversas discussões acadêmicas, teorias antropológicas e estudos mil. Há quem defenda que é sobre essa particularidade da espécie humana que se edificou toda a sociedade como a conhecemos.
Mas o ser humano é tinhoso e a comunicação nem sempre cumpre seu papel satisfatoriamente. Essa deficiência me assaltou quando decidi cortar o cabelo em um salão tradicional do bairro, onde há anos a mesma família cuida do visual dos homens da região.
Logo que me abanquei senti que a comunicação ali seria difícil, pois o dono do estabelecimento, bem como seus filhos, falavam um idioma que me era completamente estranho. Apenas depois de alguns minutos descobri que o idioma era português mesmo, e se eu não compreendia direito devia ser pelo fato dos barbeiros serem todos fanhos.
Fanhos mas felizes, é bom deixar claro. O tempo todo faziam brincadeiras entre eles e com os fregueses que aguardavam a vez. Quando se dirigiam a mim com alguma indagação, era preciso avaliar - através do tom de voz e do semblante - se tratava de uma piada, ou de algo sério. Respondia então com ''Ahnnn'', ou ''Ohhhh'', dependendo da necessidade.
As dificuldades começaram quando tive que explicar meu corte. ''Quero igual, só que menor'', tentei simplificar. Não deu muito certo, pois de dois em dois minutos me perguntavam algum detalhe. Como não entendia nada, achei mais fácil ir concordando com tudo. Quando vi, estavam tirando a minha barba e passando máquina na minha cabeça. Protestei antes que fosse tarde demais. O rapaz me olhou feio, desconfiado que eu estava tentando confundi-lo.
Logo os três se voltaram para minha cadeira e começaram a debater alguma coisa. Não sei se o mais velho dava uma bronca nos outros ou se estavam falando de mim, mas a certa altura me perguntaram alguma coisa. Dessa vez não houve escapatória. ''Como é que é?'', indaguei. Os outros se aproximaram para explicar a questão. ''Não entendi'', confessei, com medo de que a navalha que seguravam sobre mim tivesse algo a ver com a minha ignorância. Pela terceira vez repetiram a pergunta. ''Pode ser'', respondi, imaginando essa era uma boa estratégia de comunicação. Mas eis que, diante da minha afirmativa, um deles saca um garrafão de aguardente debaixo do balcão e me oferece um copo.
Moral da história: Diante de um mal entendido, mais vale reconhecer a falha na comunicação do que tentar ignorá-la, o resultado pode ser bem pior.


