LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Na volta do feriadão do dia da Independência, que passei na Ilha do Mel com o meu namorado, a única tristeza que me tomava era o fato de deixar aquele paraíso. Quer dizer, acrescento que encarar o ônibus que me levaria de volta a Curitiba também não me agradava, o famoso pinga-pinga, que vai parando por todas as praias das imediações de Pontal do Paraná cansa qualquer mortal. Mas até aí tudo bem. O ônibus cheio de gente relaxada, feliz por ter curtido dias de sol, céu e mar azul (apesar de muito gelado).
Fomos parando nas praias, uma após a outra, e as cadeiras íam sendo preenchidas pelos passageiros. Entrou uma turma de jovens fazendo muito barulho, cantarolando. Noutra praia, um casal subiu com um bebê recém-nascido, e já demonstrava sinais de crise no relacionamento. Discutiam mesmo, não se preocupavam que os outros estivessem ouvindo. Numa certa altura, o marido berrou que ela era uma má agradecida. Foi o clímax. Em seguida o choro. E aí a criança acorda e soma o seu choro estridente ao da mãe.
Outra parada e mais tipos. Dois ''hippongas'', mais um casal, uma família. Quando o ônibus parecia já estar lotado, ainda havia outra parada. De fato ainda existiam mais dois lugares, atrás de mim. Mal sabíamos o que nos esperava. Subiram dois homens, de meia-idade, barbudos, vestidos com paletós e calça social. À medida que eles foram avançando o corredor, arrancavam dos passageiros uma reação de espanto e indignação.
Isso porque os dois senhores exalavam um mau cheiro inacreditável, que se alastrou pelo ônibus inteiro. Ninguém escapou. Todos sentiram o imenso incômodo do desagradável odor. Náuseas. Só quando passaram ao meu lado, percebi que não só as roupas eram encardidas, mas a pele e tudo o mais que os acompanhavam. A dupla sentou-se atrás de mim. O cheiro forte era de ''matar''. Ninguém imagina topar com duas criaturas nessas condições dentro de um ônibus. Bom, eles pagaram a passagem e tinham o direito de viajar, mesmo fedendo horrores.
Ou será que não? Enfim, dois caras, sentados logo mais à frente, começaram a brincar e fazer os gestos semelhantes aos dos comissários de bordo: ''Senhores passageiros, caso haja uma infestação de mau cheiro no ônibus, máscaras de oxigênio cairão automaticamente a sua frente''. E em seguida soltavam gargalhadas. Alegria que durou pouco. Ninguém compartilhou da brincadeira. Todos estavam profundamente incomodados com a situação.
Os dois homens estavam absurdamente sujos e viviam uma situação tão degradante, que as pessoas não sabiam se ficavam compadecidas ou revoltadas. Todos optaram pelo silêncio. E suportamos o mau cheiro até a entrada de Curitiba, onde eles desceram. Só então se rompeu o silêncio: ''Pago R$ 50 para quem sentar na cadeira deles''. E voltou o bom-humor.


