LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Ninguém gosta da própria voz ao ouvi-la pela primeira vez no gravador. Tendemos a acreditar na imagem que fazemos de nós e ao nos confrontarmos com a realidade de que somos fanhosos, estridentes e irritantes, o estranhamento é arrebatador.
Em alguns momentos, é a imaginação que traz a armadilha da auto-imagem. Esse fenômeno ficou evidente outro dia, quando vinha para o trabalho pela rua XV de Novembro. Naquela dia acordara tarde, porém animado. Vesti uma camisa listrada, que há gerações as correntes conservadoras (minha mãe, depois minha esposa) querem jogar fora, e me mandei.
Eis que mesmo com a barba por fazer, os cabelos desgruvinhados e o tênis furado, minha figura chamava a atenção das meninas-moças do calçadão (o da XV, não da Bebel). Como acredito no poder do pensamento positivo, avaliei aquele como sendo um exemplo claro de como podemos nos tornar atraentes se acreditamos nisso plenamente e estamos em paz com o cosmos. E olha que eu nem estava fazendo muito esforço.
Um sorrisinho maroto, outra olhada com o canto do olho, de repente, até um rapaz carequinha me mandou um olhar. ''A beleza não tem fronteiras de gênero'', pensei com meus botões. Logo a soberba tomou conta de mim, acreditava que estava tão charmoso que até os olhares mais estranhos a mim direcionados traziam um elogio. Passei então a me fazer de difícil, empinando o nariz e me fazendo de distraído, como que ignorando as supostas paqueras de que participava.
Foi com essa impáfia que passei na frente do primeiro espelho do caminho e constatei o motivo de tamanha atenção pela minha figura. Na pressa de me vestir, acabei por pular um botão da camisa, que ficou toda torta, como a de um louco. Na verdade a figura do espelho parecia um fugitivo do hospício, com cabelos de maníaco e barba de náufrago para completar o figurino. Apenas na minha imaginação eu estava fazendo sucesso, e bastou isso - a vaidade - para que eu caísse na minha própria armadilha. Arrumei a camisa, penteei o cabelo e continuei andando. Incógnito como deveria ter sido desde o início.


