LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Surpresas
Ele saiu de casa chateado naquela noite de sexta-feira. Não fosse a insistência, teria continuado à frente do computador, passando o tempo com aqueles jogos sem sentido, apesar do clima quente, atípico para a época do ano. Afinal, ainda faltavam mais de três meses para o verão. Entrou no barzinho, lotado de gente que falava sem parar, ainda de cara amarrada. Encontrou o grupo que estava à espera dele. Sentou, pediu pastéis de carne e queijo e um suco.
Uns e outros puxavam papo. ''E aí, tudo bem?''. E ele respondendo com movimentos de cabeça, raros sorrisos formais. Começou a despertar a atenção. Por que estaria daquele jeito? O que teria acontecido? E ele mantendo-se alheio. Fixou a atenção no prato que o garçom colocou à sua frente e pôs-se a comer com vontade, mesmo já tendo jantado. Era um modo de não ter que dar atenção à conversa do grupo, que aliás, corria solta. Todos comemorando aquele início de fim de semana que prometia ser quente, literalmente.
Depois de umas duas ou três horas, o grupo que ocupava aquela mesa começou a ir embora. Ele começou a se sentir aliviado. Porém, era cedo demais para as duas mulheres que o acompanhavam. ''Vamos ficar só mais um pouco, tá bom?''. Como não haveria mesmo jeito de mudar aquela situação, apelou para uma porção de fritas. O lugar, muito procurado para ''happy hours'', foi se esvaziando.
E, de repente, aconteceu. Ela se aproximou da mesa, tão linda e tão decidida, com seus cabelos ondulados, escuros e soltos até os ombros. Vestia uma blusa branca, quase esvoaçante, com fitas e bordados, uma calça jeans e sandálias. Quase um anjo que carregava um caderno e um estojo de lápis. Ele a olhou por cima dos óculos, surpreso com a atitude dela. ''Vamos brincar?'', ela convidava. E ele não pôde dizer não. Passaram a hora seguinte jogando ''forca'' e ''jogo da velha''. Ao final, ela o presenteou com um bombom Sonho de Valsa e um belo sorriso. ''Preciso ir. Estou com sono.''
E foi assim que meu filho de seis anos conheceu seu primeiro amor, que atende pelo nome de Laura, deixando a mim e minhas amigas com caras de boba, pensando como seria bom se a vida (e os relacionamentos) dos adultos fosse desse jeito leve. Como um início de noite de verão em pleno inverno.


