A notícia correu como um rastilho de pólvora: o André estava com uma crônica. Logo se fez silêncio na redação. Tão moço, coitado. Um jornalista barbudo lembrou de um caso em sua cidade natal: um rapaz havia ido ao médico e voltado com o diagnóstico mortal, um mal crônico o levaria para o outro mundo.
Cogitou-se qual seria a tal crônica. Tosse crônica? Diabetes? Insuficiência coronariana crônica? O que ele tinha de tão crônico? Parecia saudável até anteontem. ''Essas coisas aparecem quando menos se espera'', ponderou alguém solenemente.
Em seguida começaram as especulações. ''Bem que percebi que ele andava mais pálido.'' Outro notou que o rapaz andava comendo mais. ''Será anemia crônica, lombriga crônica?''
Não importava, qualquer que fosse o diagnóstico, o fato dele ser crônico era a garantia de uma tragédia. Algo que perduraria - sem cura - até o final da vida, que não costuma ir muito longe diante da cronicidade da situação. Coitadinho, nunca fez mal a ninguém, e quem vai avisar a família? Será que o plano de saúde cobre? E o contágio? Melhor devolver a caneta dele, antes que seja tarde demais.
Logo formou-se uma fila de condolências. Ao tomarem conhecimento da crônica, todos se prontificaram a ajudar de alguma forma. Alguns trouxeram de casa latas de leite em pó, imaginando tratar-se de alguma deficiência de cálcio crônica. Surgiram receitas mirabolantes, ervas mágicas, preparados, emulsões, teoria dos chakras. No entanto, no íntimo de cada um sabia-se da verdade, a situação era grave, pior, crônica. ''Se eu sobreviver vou mudar minha vida completamente'', disse o crônico. Mas ninguém deu muita bola, as pessoas costumam fazer afirmações semelhantes em situações crônicas.
No final do dia, quando o lusco-fusco mostrava a passagem entre os mundos, chegou a mensagem final. A crônica cumprira sua senda, amanhã seria palavra morta impressa na página do jornal. O diagnóstico ficou claro, tratava-se de um cronista crônico.

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