Em uma dessas noites de sábado em que foi impossível escapar de uma ida ao shopping com o filho, caminhava pela calçada, resignada, desviando da algazarra dos grupinhos de adolescentes, tentando me proteger da chuva fina e sonhando com uma xícara de ''cappuccino'' quando algo ''cor-de-rosa'', encolhido à porta de uma loja, chamou minha atenção.
Fui me aproximando e vi que era uma jovem, de uns 15 anos de idade, cabelos ruivos presos num coque, brincos com delicados pingentes, vestida de jeans e jaqueta de náilon, usando botas, naquele figurino típico da faixa etária. Sentada ali, naquele frio, alheia ao movimento, ela falava ao celular. E chorava. Lágrimas e lágrimas escorrendo pelo rosto, desfazendo a maquiagem, revelando os traços quase infantis.
Fiquei intrigada com a cena e não pude deixar de imaginar o que estaria acontecendo. Ela brigava com o namorado que a deixou esperando? Descobriu estar sendo traída pela melhor amiga? Chorava porque a mãe a estava mandando voltar para casa? O bicho de estimação havia morrido? Ou ela tinha acabado de ser assaltada?
De repente, a resposta: qualquer que fosse o motivo, seria considerado muito importante por aquela garota, talvez até urgente, difícil de ser superado naquele instante. Afinal, aquele era o tempo dela. Assim como o tempo do meu filho faz com que ele chore copiosamente porque o braço ou a perna de um dos Power Rangers quebrou. Assim como o ''nosso tempo'', o dos adultos, nos faz crer que o mundo vai acabar no ano que vem, que nunca conseguiremos ser ''realmente felizes'', encontrar o grandde amor, ter dinheiro para a viagem dos sonhos.
Tempo, tempo, tempo. Ele pasaa. Ainda bem, pois, estamos aqui, eu e você, leitor, sobreviventes das urgências da infância e da adolescência. Respirei aliviada. A Miss Jaqueta Cor-de-Rosa iria ficar bem, com certeza. Olhei para o relógio e vi que era tempo de correr. Não queria perder a sessão de cinema.

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