Vivemos numa época paranóica. Cuidamos com o vidro aberto no sinal fechado, com estranhos que aparecem logo que saímos do banco, com pessoas de jaqueta em dias frios, com cabeludos, carecas, vegetarianos, chineses, talebãs. Todos são suspeitos de alguma coisa, é bom nunca perdê-los de vista.
Eu mesmo também sou suspeito. E é bom tomar cuidado, afinal, você, leitor(a) não me conhece (com exceção do meu pai que garante que lê meus textos). Posso ser um criminoso procurado, fazendo hora no jornal até encontrar outra vítima. Quem garante?
Sempre que aproveito o portão de automóveis aberto para entrar no prédio onde moro, tento tranquilizar os vizinhos. Exibo de longe o pacote de pão, ou algum livro que trago na bolsa, mostrando que ninguém realiza um assalto munido apenas de um pãozinho francês. Tento convencê-los de que sou uma pessoa normal e que não é preciso ter medo. Por sorte o porteiro me conhece.
Quando ando pela rua (e eu ando muito, pois não confio nessa gente que anda de ônibus), sempre tem alguém na minha frente que me olha com o canto do olho, provavelmente desconfiada de que alguém como eu possa segui-la. Essas horas tento demonstrar naturalidade, disfarço fingindo que tento ver as horas no seu relógio, mas não costuma dar muito certo, nesse momento geralmente a pessoa esconde o pulso e sai correndo.
Certa madrugada, eu aguardava no ponto de ônibus (não confio em gente que anda por aí depois da meia-noite) quando notei um rapaz me notando. Como já ouvi muitas histórias sobre assaltos em pontos de ônibus, resolvi me precaver e deixei passar o ônibus que vinha. Logo que partiu, vi que o rapaz continuava lá. Apavorado, corri para um táxi próximo esperando o pior, mas para minha surpresa, o outro fez a mesma coisa. Ao nos depararmos na frente do carro, soltamos um grito e saímos correndo, um pra cada lado. São tempos inseguros esses.

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