LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Uma semana depois de outra ''tragédia anunciada'' invadir o nosso cotidiano já abalado por escândalos de toda ordem, absorvo o noticiário com aquela sensação estranha de ''déjà vu'' e lamento que, mais uma vez, as muitas vozes que se levantam em momentos assim, durante manifestações, atos ecumênicos e afins, acabem ecoando no vazio. Uma visão por demais pessimista, dirão alguns. Ou realista, atestarão outros. De qualquer modo, ainda que não estejamos plenamente conscientes disso, acabamos sempre procurando algo que nos faça prosseguir, arrisco um clichê do tipo ''faz parte da nossa natureza''.
E acho que foi isso que aconteceu quando vi na tevê um pai contando que, minutos antes de embarcar no vôo 3054, sua filha adolescente havia telefonado para agradecer a viagem que ele lhe oferecera e despediu-se com um ''eu te amo''. Aquela, entre tantas outras declarações emocionadas, despertou minha atenção para algo real e, por que não, assustador. Nós vivemos como se fôssemos imortais, como se o desaparecimento da face da Terra, mais cedo ou mais tarde, de forma repentina ou tranquila, aos dez ou aos 100 anos, não fosse nossa única certeza.
Longe de mim fazer apologia à morbidez. Pelo contrário. Reconhecer nossa real condição talvez seja dar um passo em direção à liberdade. Por que deixar tudo para amanhã? Por que não fazer aquele elogio hoje? Por que não procurar agora por aquela pessoa de quem se gosta e perguntar, querendo realmente ouvir a resposta, como ela está? Costumamos reclamar tanto do imediatismo desses tempos ''pós-tudo'' mas, quem sabe, isso possa se tornar uma vantagem?
Não sei o que haverá amanhã, então, deixa eu aceitar o convite para aquela festa, deixa eu experimentar logo esse prato exótico, deixa eu rolar de rir com meu filho, deixa eu me emocionar com esse filme bobo que o crítico detestou, deixa eu usar aquela blusa que não combina com nada, deixa eu ser quem eu quiser. Só por hoje. Quem sabe assim, a gente vá vivendo, vá ''aceitando as coisas como elas são'' e, em meio à urgência, descubra-se, de repente, feliz.


