''Quando é que nevou em Curitiba?''. A pergunta feita em voz alta, na redação do jornal, por um repórter que nem havia nascido naquela época mereceu uma resposta rápida minha: ''Em 1975'', disse eu, sem me lembrar, no entanto, o mês em que aconteceu. Na mesma hora, outras pessoas começaram a perguntar: ''E daí, como é que foi?''
É engraçado, o dia da neve em Curitiba foi um acontecimento importante, mas não lembro da imagem branquinha da cidade. Acho que deve ser porque tenho uma memória muito visual e como não tinha máquina fotográfica naquele tempo, não pude registrar o momento e acabei esquecendo muita coisa.
Mas alguns detalhes eu lembro bem. Naquela noite eu dormi na casa de uma vizinha, uma senhora de uns 60 anos, que morava no segundo andar de um prédinho aos fundos da panificadora do meu pai. Eu acordei, olhei pela janela e, sem pensar duas vezes, falei: ''Nossa tem gente jogando algodão aqui em cima''. ''Não é não, é neve'', disse a vizinha.
Pois bem, saí pela cidade feliz da vida, a bordo do Karmann Ghia vermelho do filho da minha vizinha. Rodamos pela cidade, paramos em lugares onde a neve estava mais grossa no chão, guerreamos com bola de neve, fizemos nosso boneco. Lembro que não fazia muito frio, mas não sei se era essa a sensação térmica de verdade, ou se eu estava anestesiada pela emoção do momento, que nem me lembrava que os termômetros estavam em zero grau.
Depois disso, o dia da neve em Curitiba virou história. Eu me diverti muito, mas confesso que achei tudo muito estranho, afinal, nunca tinha nevado aqui. E, depois, quem devia ver neve eram minha mãe e irmã que tinham viajado para a Argentina, justamente para ver a neve que era prometida pela metereologia para acontecer naquele país e não aqui no Brasil. Só que lá não nevou, e quem acabou vendo a neve fomos meu pai e eu, aqui em Curitiba.

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