Alguns meses depois de ter trocado o Rio por Curitiba, um amigo que passou boa parte da infância e adolescência frequentando as praias cariocas durante as férias me perguntou: Você, às vezes, não tem a sensação de que vai dobrar uma esquina e sair em plena orla? Junto com um sonoro ''não'' devo ter feito uma cara de espanto, porque ele mudou de assunto na hora, depois de afirmar, categórico, que já havia até sentido o cheiro do mar por aqui.
Fiquei intrigada com aquela tal sensação que ele julgava possível. Como assim? São lugares tão diferentes entre si. Cada qual com suas peculiaridades, suas belezas, seus problemas. Impossível fazer comparações. Como ele conseguia?
O tempo foi passando e eis que, num dia ensolarado do outono passado, eu caminhava por uma rua do Centro, quase passeando, pois acabara de saber, após receber um telefonema, que meu compromisso daquela manhã havia sido cancelado.
Não sei se foi aquela breve sensação de liberdade por não ter nada para fazer naquela manhã ou a temperatura atípica para a época do ano. O fato é que, num piscar de olhos, compreendi o que meu amigo tentava me explicar, sem sucesso, meses antes. De repente, me senti em plena Copacabana! Aquela rua que, aparentemente, só reunia edifícios residenciais, acabava em uma larga avenida, com trânsito intenso, a cara da Avenida Atlântica.
Para completar a miragem, uma senhora dos seus 75 anos, cabelos curtos e totalemnte brancos, atravessava animadíssima a portaria de um prédio, cumprimentando o porteiro. Ela vinha pela calçada na minha direção e, ao passar ao meu lado, pude observar que usava uma camiseta do Sesc. Provavelmente, estava ali mais uma representante da geração saúde na terceira idade, que devia estar indo à aula de hidroginástica, de yoga ou algo assim. Mais Copacabana impossível! Tive vontade de segui-la. Mas, acabei dando meia volta e continuando no meu caminho, rindo sozinha, começando a ter certeza de que na nossa mente podem estar todos os lugares do mundo.

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