LIGEIRAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Como diz o ditado popular, ''basta estar vivo para morrer''. Embora se saiba que a morte é certa para todos, um dia, e consequência natural do envelhecimento, a proximidade com o dia fatídico provoca medo e deixa qualquer um de orelha em pé. Não precisa que a morte atinja a nós mesmos, para que nos leve a reflexão de um dos temas mais recorrentes da humanidade. Basta testemunhar outra pessoa, estranha, quase ''bater as botas''. Como aconteceu com uma senhora que estava no mesmo ônibus que tomei, dia desses, em Curitiba.
Pálida e branca como um papel, a mulher se deitou na cadeira e ofegante começou a revirar os olhos. Poucos passageiros tinham se dado conta do drama até esse momento. O motorista resolveu, então, parar o ônibus em frente ao Corpo de Bombeiros. Todos se levantam, querem ajudar, fazem comentários, se compadecem e ficam aflitos. Parece que enfim chegará socorro para a senhora agonizante. No entanto, o bombeiro informa que a última viatura acabara de sair para prestar socorro a outra pessoa.
Uma discussão toma o ônibus. ''Acho que devemos chamar o Siate, deve ser pressão baixa.'' ''Por que não levam ela para dentro?'' ''Por que o bombeiro não presta os primeiros socorros?'' Houve ainda quem pensasse no próprio umbigo: ''Não acredito, vou chegar atrasado no serviço''. Segundos depois se arrependeu. ''Coitadinha dela.'' Enquanto isso, a cobradora tentava conversar com a mulher e segurou sua cabeça.
Quem tomou uma atitude foi o motorista. ''Pessoal, peço encarecidamente que todos desçam e peguem o próximo ônibus. Vou levar esta senhora ao posto de sáude mais próximo'', disse firme. Todos os passageiros desceram, o motorista fez a volta e levou a senhora embora. Poucos comentários foram feitos. A maioria ficou em silêncio. Chegou outro ônibus e a cobradora explicou o acontecido para o motorista. Todos subiram.
O motorista então disse: ''Nós vimos a senhora, ela estava muito mal. Acho que já estava morta''. O cobrador, que parecia compartilhar do mesmo humor do motorista completou. ''Já estenderam até a toalha preta.'' Em seguida os dois soltaram gargalhadas e informaram que ela ainda estava viva, que era brincadeirinha. Ninguém além deles achou engraçado. ''Nem respeito as pessoas têm mais pelas outras'', concluiu uma senhora, indignada. O que esperar então de uma reflexão sobre a morte? Para os dois, passou batida.


