É interessante observarmos como mesmo a léguas e anos de distância da terra natal, algumas etnias preservam o sotaque original, enquanto outras, basta virar uma esquina para mudar completamente a maneira de falar.
Cariocas, por exemplo, mesmo depois de anos em outras cidades conservam o ''merrmão'', o ''quêma'' (da palavra queima) e outras características de linguagem que sobrevivem incólumes em outras paisagens.
Essas diferenças me levaram a conceber uma teoria. Meu lado cientista realizou um amplo estudo e confirmou a existência de sotaques ''dominantes'' e ''recessivos'', sub-divididos nos mais diversos graus.
Elaborei este pensamento durante minhas andanças estudantis, quando o centro acadêmico do curso de jornalismo me pagava passagens (de ônibus, claro) para os mais variados destinos - de Belém a Florianópolis - onde eram realizadas grandes festas que duravam dias e que os organizadores chamavam ''encontros'' e ''congressos'', mas que eram uma folia total.
Pois bem, nesta época convivi com gente do Brasil inteiro e pude comprovar algumas premissas dessa teoria. Por exemplo: em um quarto com 5 gaúchos e 5 curitibanos, ao final de uma semana todos os paranaenses estarão cheios de ''tchê'' e ''tri-legal'', enquanto que a turma do chimarrão permanecerá a mesma. Por outro lado, quando colocamos juntos gaúchos e mineiros, os primeiros acabarão a semana cheios de trejeitos como ''uai'' e ''sô'', ou seja, existem diferentes graus de atração linguística. Os dominantes também são dominados por sotaques mais fortes.
Surpreendentemente, a única região que não dominou ninguém com seu sotaque foi Curitiba, pois mesmo a turma do interior do Paraná consegue imprimir suas características no povo da capital. Ficou caracterizado o curitibano como o mais recessivo dos sotaques. Se essa característica se reflete em outros aspectos de nossa identidade, onde também mimetizamos outras culturas, não arrisco opinar.

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