Uma notícia que ganhou destaque nos jornais paranaenses na última quarta-feira foi assunto principal também nos balcões dos cafés da Rua XV, das mesas de restaurante do Centro Cívico, das filas de supermercado. Enfim, onde havia aglomeração de gente na capital, estava lá o tema Zanella e a pergunta que não quer calar: como é que o julgameno de acusados de um crime ocorrido há 10 anos pôde ser adiado pela sétima vez?
Para quem não se lembra ou mora há pouco tempo em Curitiba, explico o caso: o estudante Rafael Zanella foi morto em 28 de maio de 1997 durante uma abordagem policial no bairro Santa Felicidade. Ele estava junto com três amigos e teria sido confundido com um traficante. Um dos envolvidos no caso, ex-informante da polícia, foi o único condenado por homicído e está preso.
Três policiais seriam julgados na terça-feira (um delegado, um escrivão e um investigador), mas os advogados dos três justificaram o pedido de adiamento - para 12 de julho - porque eles estariam doentes. Mais um adiamento arrancou um desabafo do juiz Ronaldo Sansone Guerra: ''Eu tenho vergonha de ser juiz''.
Eu estava no balcão de um café na Avenida Carlos de Carvalho, anteontem à tarde, quando dois homens de aproximadamente 60 anos, bem vestidos, se encontram por acaso. Depois do cumprimento educado e do primeiro cafezinho, o caso Zanella surge na conversa. Lamentam o sétimo adiamento, sensibilizam-se com a família da vítima. A conversa segue normal até que um deles, de terno azul marinho, provoca o outro:
- Seu filho ainda pretende fazer concurso para juiz? Ele não tem vergonha de querer ser juiz?
O amigo leva a xícara calmamente até a boca e depois faz um sinal para a atendente trazer mais um café. Percebo que a resposta será certeira e rapidamente pego de dentro da minha bolsa o bloco e a caneta (jornalista nunca deixa de trazer essas duas ''armas'' poderosas justamente para momentos assim).
Primeiramente, o interlocutor sai na defesa do juiz Ronaldo:
- Ainda bem que ainda existem juízes que têm capacidade de indignação. É por isso que eu acredito na justiça. Mas, por falar nisso... E você, meu amigo, não tem vergonha de ser advogado?

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